quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Sobre simplicidade e sabedoria - áudio do encontro



Encontros ao vivo e a cores são sempre mais saborosos. Mas tem conversa que é tão rica que pede mais. Tem sido assim. Muita gente que anda longe nos pede para participar das conversas promovidas pelo Peteca. Então, vamos ampliar essa conversa!

Começamos com um belo texto de Rubem Alves sobre simplicidade e sabedoria - o próprio autor sugere a música de fundo! Com mais de 50 livros publicados, em seus textos Rubem Alves visita temas fundamentais de um jeito ao mesmo tempo leve e profundo, e sempre inspira ótimas reflexões.

Esse áudio, na voz de Teresa Bessil,  é também um registro de nossa gratidão a ele.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

simplicidade e sabedoria


No dia 05 de agosto, realizamos nosso primeiro encontro do "Conversas com Rubem Alves". Começamos com o ótimo texto " Sobre simplicidade e sabedoria" do livro "Concerto para corpo e alma".
.
Seguimos o convite à reflexão que o texto nos ...causa. Durante hora e meia a conversa correu solta. Cada um e todos juntos se dando o tempo para pensar sobre essa eterna dinâmica que nos tensiona e nos lança à frente, entre a multiplicidade e a simplicidade - e a sabedoria que pode brotar a partir do nosso transitar entre elas.

Um encontro é sempre coisa única; não há como e nem porque se tentar reproduzir aqui o que acontece em um encontro. Então para continuar cultivando aquilo que possa ter sido despertado na terça, apenas citamos aqui alguns trechos do texto que mais conduziram as conversas.

"As aves, ao crepúsculo, são simples. Simplicidade é isso: quando o coração busca uma só coisa."

"Se, para os jovens, a multiplicidade tem o nome de liberdade, para os adultos, tem o nome de dever."

"Mas o que a multiplicidade faz é estilhaçar o coração. O coração que persegue os "muitos" é um coração fragmentado, sem descanso."

"Saberes não são lar. São, na melhor das hipóteses, tijolos para se construir a casa. Mas os tijolos, eles mesmos, nada sabem sobre a casa. Os tijolos pertencem a multiplicidade. A casa pertence à simplicidade: uma única coisa."

"Diz o Tao Te Ching:" Na busca do conhecimento a cada dia se soma uma coisa. Na busca da sabedoria a cada dia se diminui uma coisa".

"A sabedoria é a arte de reconhecer e degustar a alegria."
Ver mais
 


quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Do Amor



Do Amor - Moska
Não falo do amor romântico,
aquelas paixões meladas de tristeza e sofrimento.
Relações de dependência e submissão,
paixões tristes.
Algumas pessoas confundem isso com amor.
Chamam de amor esse querer escravo,
e pensam que o amor é alguma coisa que pode ser definida,
explicada, entendida, julgada.
Pensam que o amor já estava pronto,
formatado, inteiro, antes de ser experimentado.
Mas é exatamente o oposto, para mim,
que o amor manifesta.
A virtude do amor é sua capacidade potencial de ser construído,
inventado e modificado.
O amor está em movimento eterno, em velocidade infinita.
O amor é um móbile.
Como fotografá-lo?
Como percebê-lo?
Como se deixar sê-lo?
E como impedir que a imagem sedentária e cansada do amor não nos domine?
Minha resposta?
O amor é o desconhecido.
Mesmo depois de uma vida inteira de amores,
o amor será sempre o desconhecido,
a força luminosa que ao mesmo tempo cega e nos dá uma nova visão.
A imagem que eu tenho do amor é a de um ser em mutação.
O amor quer ser interferido,
quer ser violado,
quer ser transformado a cada instante.
A vida do amor depende dessa interferência.
A morte do amor é quando, diante do seu labirinto,
decidimos caminhar pela estrada reta.
Ele nos oferece seus oceanos de mares revoltos e profundos,
e nós preferimos o leito de um rio,
com início, meio e fim.
Não, não podemos subestimar o amor não podemos castrá-lo.
O amor não é orgânico.
Não é meu coração que sente o amor.
É a minha alma que o saboreia.
Não é no meu sangue que ele ferve.
O amor faz sua fogueira dionisíaca no meu espírito.
Sua força se mistura com a minha e
nossas pequenas fagulhas ecoam pelo céu
como se fossem novas estrelas recém-nascidas.
O amor brilha.
Como uma aurora colorida e misteriosa,
como um crepúsculo inundado de beleza e despedida,
o amor grita seu silêncio e nos dá sua música.
Nós dançamos sua felicidade em delírio porque somos o alimento preferido do amor,
se estivermos também a devorá-lo.
O amor, eu não conheço.
E é exatamente por isso que o desejo e me jogo do seu abismo,
me aventurando ao seu encontro.
A vida só existe quando o amor a navega.
Morrer de amor é a substância de que a Vida é feita.
Ou melhor, só se Vive no amor.
E a língua do amor é a língua que eu falo e escuto.












terça-feira, 29 de julho de 2014

Para saborear




Estávamos na fase de pensar e preparar as atividades do Espaço da Lopes para o segundo semestre quando um dia me deparei com a seguinte frase de Alexandre Dumas:  
" O homem não vive do que come, mas do que digere."

Na hora me lembrei que um dia muitos de nós cantamos (talvez tenhamos mais  gritado  do que cantado) junto com os Titãs:  "Você tem fome de quê?  Você tem sede de quê?"

Os anos 80 já se foram há um bom tempo, mas a pergunta é sempre atual: você tem fome de quê ?

Talvez agora tal pergunta surja  em outro contexto. O tempo passou, a vida se acelerou,  e o aspecto de consumo parece se instalar em tudo que está ao nosso redor. Na vertigem causada pela necessidade de maximizar a eficiência, consumimos tudo. O mundo vai se transformando em um mercado. Todos os aspectos da existência parecem sucumbir ao mandamento do consumo. Isso é bom ou ruim ? Quem pode dizer?
O assunto é bastante complexo, e criar juízos de valores está totalmente fora dessa nossa reflexão. O que sabemos é que em boa parte do tempo, diante da variedade multicolorida do que nos é "vendido", nós acabamos por "engolir sem mastigar", nós nos alimentamos sem saborear.

Sem sabor é difícil possuir saber. De qualquer maneira, não importa, afinal  amanhã já será tudo outro. Também foram os mesmo Titãs que compuseram "A melhor banda de todos os tempos da última semana". Saborear, digerir, quem tem tempo?

Nietzsch já nos chamava a atenção para a necessidade de cultivarmos nossa qualidade "bovina", de ruminar. O que é esse ruminar se não o próprio digerir?
Rubem Alves nos fala: " Há autores que li sem que os tivesse amado. Não os devorei. Suas ideias ficaram guardadas na minha cabeça. Outros, que amei, devorei. Passaram a fazer parte do meu corpo. Aquilo que se come não continua sendo o mesmo, depois de comido. É assimilado - fica semelhante a mim. Batatas, cenouras, e carnes, uma vez comidas, deixam de ser batatas, cenouras e carnes. Passam a ser parte de mim mesmo, minha carne, meu sangue. Assim acontece com os autores que devorei e cito. Só os cito porque se tornaram parte da minha carne e do meu sangue. Eu os conheço "de cor" - isto é, como parte do meu coração. Deixaram de ser eles. São eu."

Talvez algo do mal estar do cotidiano esteja aí. Sem tempo para digerir, sem tempo para saborear, como saber? Como responder ao  "você tem fome de quê?"
Sem devorar, sem digerir, do que é feito nossa carne, nosso sangue? Se acompanhamos o pensar de Rubem Alves ,tudo torna-se idéia. Talvez esses sejam indícios  dessa imaterialidade e falta de concretude, sentida como um grande vazio ao nosso redor.

Às vezes tudo pode parecer assustadoramente dificil. Mas não ha necessidade de susto. Os temas são graves pela gravidade de nossas vidas. Nossa vida nos importa. É a liberdade misteriosa do viver que nos lança de encontro a nosso mundo e nos convoca para a realização do nosso ser.
Para saber-nos, temos que saborear o nosso viver. E talvez assim torne-se mais fácil responder: você tem fome de quê?

É nesse contexto que surge nossa atenção especial com o saborear nas atividades do Peteca Filosófica.
Em Peteca Movies somos levados para outros mundos, outras vidas, mas que sempre guardam uma proximidade conosco. "Nada do que é humano me é estranho", já nos dizia o poeta. Somos tocados por histórias, sejam elas de ficção ou não, mas sempre humanas.

Em Conversas com... saboreamos as palavras e os mundos surgidos a partir do olhar de alguns autores/pensadores. De certo modo, a obra sempre espera esse diálogo e só se realiza na leitura. Um livro depende dos olhos de quem o lê. Sem o leitor, não há o autor. A leitura produz vida a quem lê - saboreia -  e também a quem escreve.
Em Amor em curso buscamos maior familiaridade com o tema do Amor. Não para criar um "Inmetro das relações", não para julgar ou definir coisa alguma. É tão somente um trecho dessa aventura do viver.

A vida nos convida e nos desafia a saboreá-la. 

Se você quiser participar do menu degustação oferecido nas atividades do Peteca Filosófica Social Clube, entre em contato conosco ;)

Texto de Marco Zago, com levíssimas pitadas de Teresa Bessil

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Conversas com...

 


Conversas com Rubem Alves e Rainer Maria Rilke

Reflexões a partir da leitura de textos de Rainer Maria Rilke, poeta alemão (1875-1926), e Rubem Alves, teólogo, psicanalista, professor e cronista (1933-2014). (*)


Rilke e Rubem colocaram em palavras muitas das questões humanas relacionadas à vida e morte: afetos, vocação, solidão, mistério, saberes e sabores. Em seus textos há um convite generoso que aproxima os mundos interno e externo. De modo profundo e leve, eles lançam e compartilham um olhar preciso sobre a condição humana. Prosa que parece canção, palavra que celebra encontros e inspira reflexões.

às terças, das 20h às 21h30, no Espaço da Lopes - Icaraí - Niterói

início: 05 de agosto

(*) Conversas com Rubem Alves é uma atividade desenhada há algum tempo, a partir de nossa grande afinidade e intimidade com a obra do autor, e agora transforma-se também em uma homenagem. Ele segue vivo em seus textos, segue vivo no coração de seus leitores e amigos. Foi escrever nas nuvens - para deleite absoluto dos anjos.


"Precisamos aceitar a nossa existência em todo o seu alcance; tudo, mesmo o inaudito, tem de sesr possível nela. No fundo é esta a única coragem que se exige de nós: sermos corajosos diante do que é mais estranho, mais maravilhoso e mais inexplicável entre tudo com que nos deparamos." - Rainer Maria Rilke

"A beleza me produz uma tristeza mansa. Não julgo que ela deva ser curada. Se eu a curasse, se eu ficasse alegrinho, eu deixaria de ser o que sou. Minha tirsteza é tanto parte de mim quanto a cor de meus olhos, as batidas de meu coração, as minhas mãos. Sem a minha tristeza eu ficaria aleijado - acho que até pararia de escrever. Porque a minha escritura é um contraponto musical à minha tristeza". Rubem Alves

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Platão, os trovadores e eu

 



Nossos encontros sobre o amor seguem.
Refletimos sobre o amor. Buscamos nos aproximar do afeto. Queremos deixar nossos passos serem guiados pelo próprio amor, ou melhor, por aquilo que é próprio à nossa forma de experienciar o amor. Com isso, o fio condutor do nosso meditar é a vida e não definições prévias sobre o amor. Tentamos nos mover a partir, e principalmente, dentro do amor. Almejamos de maneira muito simples falar a partir e não sobre o amor. Queremos a palavra simples, que seja o eco e a ressonância daquilo que se dá sempre na simplicidade e imediaticidade do nosso viver. Recolher o simples é sempre muito difícil.

Nosso encontro mais recente passeou por trovadores, poetas e Platão. Nosso olhar pôde colher um aceno, ainda muito rudimentar, do aspecto cultural do amor. Aquilo que hoje chamamos amor não é um fenômeno a-histórico. Foi forjado em nossa cultura ao longo dos séculos. Se nosso olhar atingiu algo de verdadeiro, podemos inferir que, como tudo mais na cultura, o amor também é aprendido. Amor não é pura maturação biológica. E aqui nosso caminhar resvala na mensagem repetida à exaustão por aqueles que a humanidade chama de mestres: o amor se aprende.
Mas não estamos tentando seguir mestres, e qualquer coincidência em relação às nossas meditações devem permanecer como possibilidades a serem visadas em outro momento caso isso se mostre interessante.  Tentamos não desviar de nosso fio condutor: o amor.

Em nosso encontro, foi possível refletir rapidamente em relação ao contraste das formas impessoais do amor de Eros e Ágape (tomados de forma bem ampla) e a forma pessoal que o amor toma em nossa vida.
Assim deixamos sinalizado o que virá em nosso próximo encontro.

Seguindo essa tonalidade, vemos o amor "acontecer" desta e daquela maneira, sempre e de novo.

Para cada um. Sempre e de novo. Em primeira pessoa. Sempre na minha vida. Acontecimento pessoal, acontecimento sempre meu. Vida sendo minha, vida se dando ao meu viver, sendo minha, meu ser.

(Texto de Marco Zago)

Vivências e sabores






No dia 29/06, tivemos mais um encontro do  "Amor em curso".
Olhamos para algumas formas possíveis de se estar em relação com algo, ou alguém. Essas possibilidades de vivências foram por nós nomeadas , ainda que de uma maneira bem ampla, como  gravitação, desejo e projeção.
Ainda tendo em mente essas formas de vivenciar um encontro, ficou bem claro que, nas relações que vamos estabelecendo ao longo da vida, todas essas possibilidades, - e muitas outras - surgem a todo o tempo, nas mais variadas interações. Para nós é muito difícil traçar limites nítidos entre aquilo que vamos vivenciando em nossos encontros com o outro.
E aqui retornamos ao sentido de nossos encontros no “Amor em curso”. Em nenhum momento pretendemos atingir a nitidez cristalina de um conceito que possa ser expresso em alguma definição capaz de "organizar e resolver" nossos relacionamentos.  O que procuramos é uma aproximação do nosso modo de vivenciar os encontros para que estes possam ser melhor "saboreados". Aqui sabor é pensado no seu parentesco etimológico com a palavra saber. Saber é uma forma de saborear, degustar.
Em nosso último encontro explicitamos justamente as dificuldades presentes nas relações, os muitos caminhos e descaminhos que fazem parte dos encontros, principalmente dos amorosos.
Como explicar esse incrível fascínio que o amor nos provoca?
Como pensar esse "sabor" único no nosso viver?
Deixo aqui duas citações que vão nos ajudar a seguir olhando essas questões.
O primeiro é um poema medieval do século XII:
"Assim, pelos olhos, o amor atinge o coração:
Pois os olhos são os espiões do coração.
E vão investigando
O que agradaria a este possuir.
E quando entram em pleno acordo
E, firmes, os três em um só se harmonizam,
Nesse instante nasce o amor perfeito, nasce
Daquilo que os olhos tornaram bem-vindos ao coração.
O amor não pode nascer nem ter início senão
Por esse movimento originado do pendor natural.
Pela graça e o comando
Dos três, e do prazer deles,
Nasce o amor, cuja clara esperança
Segue dando conforto aos seus amigos.
Pois, como sabem todos os amantes
Verdadeiros, o amor é bondade perfeita
Oriunda - ninguém duvida - do coração e dos olhos.
Os olhos o fazem florescer; o coração o amadurece:
Amor, fruto da semente pelos três plantada".
                                                                            Guiraut de Borneilh  ( cerca  1138 - 1200)
 
O segundo é apenas uma frase de Platão : "O amor é o desejo de gerar na beleza.”
 
Seguimos nesse processo de aproximação, Seguimos nessa aventura de sabores. Seguimos em curso.
(Texto de Marco Zago)
 
 
 
 
 

Isabela e Isadora




Isadora é moça de alegrias simples e sonhos contentes. Sai de casa bem cedo todo dia, e só volta depois do céu escurecido. Gosta da vida que leva. Certo dia Isadora fez um outro trajeto em sua manhã e se deparou com um canteiro de flores. Muitas flores, em cores e formas variadas. Achou aquilo tudo tão bonito que pensou com os botões que nem tinha: amanhã passo por aqui de novo. E assim fez. Manhã seguinte lá se foi Isadora ao encontro do canteiro de muitas flores. Levava consigo uma afiada tesoura de corte. Bem cuidadosa, cortou com precisão e extrema ternura várias flores, a maioria delas ainda em botão. No local do corte, cuidou de colocar um algodão embebido em água, para bem cuidar de cada flor. Isadora é moça de alegrias simples, sonhos contentes e sabe cuidar bem de tudo que vive.

Em casa, tirou do armário um bonito vaso de cristal que alguém lhe dera de presente, sabe lá quando ou por que motivo. Cuidadosamente foi colocando as flores no vaso, fluindo na belezura de cada flor e adivinhando o belíssimo conjunto que ali surgiria em alguns minutos. Pois foi desse jeito mesmo. Logo a sala estava mais nobre, bonita e perfumada que nunca. De tão contente, Isadora tirou uns dias de folga de seus afazeres comuns e se lançou a testemunhar a beleza daquilo tudo. Botões iam se abrindo, cada um em seu próprio ritmo e formato. E aquilo era tão tocante que Isadora convidou amigos e vizinhos para que outras gentes também respirassem tais acontecidos. Era um jeito bom de viver tudo aquilo. E mesmo quando os botões seguiram seu destino de flor madura que fenece, algo de muito singelo e ainda assim espetacular ali residia. E os amigos e vizinhos continuavam a lhe visitar talvez porque Isadora também fosse cumprindo seu destino de florescer. Quando porventura fenecer, a beleza, perfume e nobreza daquelas flores talvez sigam com ela.

Isabela é uma outra moça, de sonhos e alegrias desconhecidas por quem lhes escreve. Sabe-se dela muito pouco, mas tem um jeito bonito de olhar para quem passa e dizer bom dia. Faz nascer pequenos sorrisos por todo lado. À noite, ela segue em silêncio. Ninguém sabe os motivos, mas ela não diz boa noite aos que encontra em seu caminho de volta para casa. Uns dizem que é triste. Outros dizem que é quieta demais. Uns nada dizem, apenas adivinham pequenos sorrisos vivendo em seu coração.

Isabela mora em bairro distante de Isadora. As moças não se conhecem e talvez por isso Isabela não tenha sido convidada a frequentar a sala de Isadora, que como já lhes disse, seguiu bem bonita mesmo depois da passagem das flores. Há quem diga que aquele vaso de flores era encantado, de fazer contente muitas gentes. Talvez fosse mesmo. Lá não estive, mas bem posso adivinhar tais efeitos.

Um dia nossa Isabela passou por muitas pessoas, a todos dizendo bom dia. Distraída com todos aqueles pequenso sorrisos, acabou fazendo outro caminho. E se deparou com um canteiro de flores. Muitas flores,em  cores e formas variadas. Achou aquilo tudo tão bonito que pensou com os botões que nem tinha: amanhã passo por aqui de novo. E assim fez. Depois de muito bom dia distribuído, lá estava ela diante do canteiro novamente. Olhava aquilo tudo, e sentia coisas que nem sabia existir. E foi ficando parecida com as flores. Foi ficando variada em cores, perfumes e formas. Desde esse dia, Isabela passou a alterar seus caminhos para estar na presença das flores. Acompanhava o destino de cada uma delas. E também as flores pareciam acompanhar o destino de Isabela. Que passou a dizer boa noite a quem encontrasse na rua e nos sonhos. Há quem diga que sua tristeza virou poesia e já não doía em mais ninguém. Ao contrário, seu jeito de flor parecia encantar os lugares pelos quais passava. Deixava tudo bonito, nobre e perfumado. E tratava de modular seu caminho para estar diante de flor. Talvez tenha sido exatamente assim. Lá não estive, mas bem posso adivinhar tais efeitos.

Isabela alterava rota para estar diante das flores e nelas viver. As flores que Isadora levou para casa certamente mudaram seu mundo.

Isabela e Isadora são moças simples, cujos sonhos e alegrias não saberia lhes descrever. O que sei é que amavam flores. E nisso sentiam a vida. Isadora mudou sua casa, a si mesma e a todos que em sua casa estiveram. Isabela mudou seu caminho pelo mundo, a si mesma e a todos que encontrou. Tenho cá com os botões que nem tenho que as duas viraram flor e exalam perfumes que nos chegam assim de repente, sem que haja flores em volta.

Modos de estar, modos de amar, modos de viver. Tudo vida.

(Texto de Teresa Bessil)

 

Rubem Alves e os tipos de casamento

 




       Depois de muito meditar sobre o assunto concluí que os casamentos são de dois tipos: há os casamentos do tipo tênis e há os casamentos do tipo frescobol. Os casamentos do tipo tênis são uma fonte de raiva e ressentimentos e terminam sempre ...mal. Os casamentos do tipo frescobol são uma fonte de alegria e têm a chance de ter vida longa.

Explico-me. Para começar, uma afirmação de Nietzsche, com a qual concordo inteiramente. Dizia ele:

Ao pensar sobre a possibilidade do casamento cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: "Você crê que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até a sua velhice?". Tudo o mais no casamento é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar.

Xerazade sabia disso. Sabia que os casamentos baseados nos prazeres da cama são sempre decapitados pela manhã, terminam em separação, pois os prazeres do sexo se esgotam rapidamente, terminam na morte, como no filme O império dos sentidos. Por isso, quando o sexo já estava morto na cama, e o amor não mais se podia dizer através dele, ela o ressuscitava pela magia da palavra: começava uma longa conversa, conversa sem fim, que deveria durar mil e uma noites. O sultão se calava e escutava as suas palavras como se fossem música. A música dos sons ou da palavra – é a sexualidade sob a forma da eternidade: é o amor que ressuscita sempre, depois de morrer. Há os carinhos que se fazem com o corpo e há os carinhos que se fazem com as palavras. E contrariamente ao que pensam os amantes inexperientes, fazer carinho com as palavras não é ficar repetindo o tempo todo: "Eu te amo, eu te amo...". Barthes advertia: "Passada a primeira confissão, 'eu te amo' não quer dizer mais nada". É na conversa que o nosso verdadeiro corpo se mostra, não em sua nudez anatômica, mas em sua nudez poética. Recordo a sabedoria de Adélia Prado: "Erótica é a alma".

O tênis é um jogo feroz. O seu objetivo é derrotar o adversário. E a sua derrota se revela no seu erro: o outro foi incapaz de devolver a bola. Joga-se tênis para fazer o outro errar. O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco do seu adversário, e é justamente para aí que ele vai dirigir a sua cortada – palavra muito sugestiva, que indica o seu objetivo sádico, que é o de cortar, interromper, derrotar. O prazer do tênis se encontra, portanto, justamente no momento em que o jogo não pode mais continuar porque o adversário foi colocado fora de jogo. Termina sempre com a alegria de um e a tristeza de outro.
O frescobol se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que, para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devolvê-la gostosa, no lugar certo, para que o outro possa pegá-la. Não existe adversário porque não há ninguém a ser derrotado. Aqui ou os dois ganham ou ninguém ganha. E ninguém fica feliz quando o outro erra – pois o que se deseja é que ninguém erre. O erro de um, no frescobol, é como ejaculação precoce: um acidente lamentável que não deveria ter acontecido, pois o gostoso mesmo é aquele ir e vir, ir e vir, ir e vir... E o que errou pede desculpas, e o que provocou o erro se sente culpado. Mas não tem importância: começa-se de novo este delicioso jogo em que ninguém marca pontos...

A bola: são as nossas fantasias, irrealidades, sonhos sob a forma de palavras. Conversar é ficar batendo sonho pra lá, sonho pra cá...
Mas há casais que jogam com os sonhos como se jogassem tênis. Ficam à espera do momento certo para a cortada. Camus anotava no seu diário pequenos fragmentos para os livros que pretendia escrever. Um deles, que se encontra nos Primeiros cadernos, é sobre este jogo de tênis:

Cena: o marido, a mulher, a galeria. O primeiro tem valor e gosta de brilhar. A segunda guarda silêncio, mas, com pequenas frases secas, destrói todos os propósitos do caro esposo. Desta forma marca constantemente a sua superioridade. O outro domina-se, mas sofre uma humilhação e é assim que nasce o ódio. Exemplo: com um sorriso: "Não se faça mais estúpido do que é, meu amigo". A galeria torce e sorri pouco à vontade. Ele cora, aproxima-se dela, beija-lhe a mão suspirando: "Tens razão, minha querida". A situação está salva e o ódio vai aumentando.

Tênis é assim: recebe-se o sonho do outro para destruí-lo, arrebentá-lo, como bolha de sabão... O que se busca é ter razão e o que se ganha é o distanciamento. Aqui, quem ganha sempre perde.

Já no frescobol é diferente: o sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois se sabe que, se é sonho, é coisa delicada, do coração. O bom ouvinte é aquele que, ao falar, abre espaços para que as bolhas de sabão do outro voem livres. Bola vai, bola vem – cresce o amor... Ninguém ganha para que os dois ganhem. E se deseja então que o outro viva sempre, eternamente, para que o jogo nunca tenha fim...

(Texto de Rubem Alves)

 

Mistérios e desafios


 
 
Amor. Em todos os tempos, nada foi tão cantado, pensado, desenhado, escrito e descrito. Exerce enorme poder de nos mobilizar - para o bem ou para o mal. Todos os grandes mestres nos apontam e inspiram nesse sentido. Ainda assim, percebemos ...uma dificuldade em viver a partir do Amor, conhecê-lo ou reconhecê-lo. Talvez seja mais fácil dele falar do que nele habitar.

E justo porque nos afeta tanto, o assunto surge repetidas vezes, flertando com o piegas aqui e ali - meio cansativo, talvez. Ainda assim, é um tema que se impõe pela própria aventura do viver. Como escapar ou desviar do tema do amor? Que siga surgindo, com seus mistérios e desafios.

“Si nada nos salva de la muerte, al menos que el amor nos salve de la vida”
                                                                                            (Pablo Neruda)

 

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Amor em Curso - módulo 1


Módulo 1 :  turma 1 - sábados, das 10h às 12h


17 de maio - Desafio
31 de maio - O Amor
14 de junho - Caminhos e descaminhos

28 de junho - Os amores
12 de julho - O tempo
26 de julho - Abertura


Local: Espaço da Lopes - Icaraí - Niterói

Valor: R$200,00/mês


"Se nada nos salva da morte, pelo menos que o amor nos salve da vida."
                                                                                          Pablo Neruda

 

 

 


segunda-feira, 28 de abril de 2014

Amor em curso - caminhos e descaminhos do afeto




"Seguir o curso do Amor é ser por ele orientado. O Amor não segue linhas retas, estradas definidas ou rotas previsíveis. O Amor é o eterno desconhecido." - Marco Zago


 
                                                Afetividade em tempos de efetividade

 
As artes sinalizam. Grandes mestres já nos indicaram inúmeros caminhos. Muitos pensadores lançaram-se nesse terreno. Para o bem e para o mal, os afetos nos mobilizam. Ainda que o Amor - seja lá o que for - pareça conferir sentido à vida, percebemos uma crescente dificuldade em vivê-lo, conhecê-lo - ou reconhecê-lo. Parece ser mais fácil dele falar do que nele habitar. Submersos em um culto à efetividade, novos desafios se mostram.


Mais do que aprender sobre o Amor, podemos aprender a amar? Talvez essa seja a aventura de cada um de nós. Demanda tempo, cuidado. Demanda o nosso próprio viver.

Em meio a tais desafios, o Peteca Filosófica Social Clube lança "Amor em Curso - caminhos e descaminhos do afeto". Um estudo sobre o Amor que se destina muito mais a resgatar uma familiaridade do que meramente listar definições sobre o Amor ou métodos para equacionar nossas relações.

Para compartilhar nossas reflexões sobre essa aventura e apresentar o curso "Amor em Curso - caminhos e descaminhos do afeto", convidamos você ao encontro aberto que será realizado no dia 10 de maio, às 10h, no Espaço da Lopes. Sua presença será uma alegria!


Sonho real?

 
 
Quem sou – desde e até quando, e a partir de quais olhares. No domingo da famosa, surpreendente e ainda assim aguardada ressurreição, o filme – na verdade, uma animação - reúne os seguintes personagens: Coelho da Páscoa, Papai Noel, a Fada do Dente , Sandyman, Jack Frost, um grupo de crianças e o temido Breu. Para crianças, então? Sim. E não. Crianças de todas as idades se divertem nas venturas e desventuras coloridas, mas dependendo do jeito de olhar, é papo de adulto. O que é real, o que é sonho?  O que nos dá sensação de existência? Ah, sim, os personagens são da esfera da fantasia, dos mundos de faz-de-conta. São todos inventados. Sempre são. Será que nós também somos?
 
A grande aventura de Jack Frost é conhecer a si mesmo, estar presente em meio ao que vive, é nascer diante de si mesmo, refletido e junto ao olhar do outro. Papo existencial profundo. Convida e inspira reflexões. E rende boa prosa, como sempre.

Será que a realidade se descreveria somente através do que pode ser visto, tocado, cheirado, medido? Haverá outros modos de olhar e sentir para além das aparências? Por que será que estamos sempre buscando comprovações e sinais que confiram um selo de realidade ao que vivemos?
 
Ah, sim, mas eu ia contar dos personagens. O Coelho da Páscoa, meio marrento, grandalhão, guarda o tesouro da esperança e renovação. Papai Noel, com seus braços tatuados e sua pança sensível, guarda o tesouro do olhar encantado. A Fada do Dente, toda espertinha, guarda as lembranças da infância. Todos contam com muitos auxiliares.  Manter a magia em dia dá um trabalho danado. E uma baita diversão também. Sandyman, um baixinho que se comunica somente através de imagens, guarda nossa capacidade de sonhar. E Jack Frost - sem saber muito bem de si mesmo - se vê convocado a participar de um embate com o Breu, o guardião do medo que detona tudo o que é encantado, transforma sonhos em pesadelos e exaure o potencial de tudo o que é inspirador.
Invisível para todos, Jack não se sabia guardião de um certo tesouro da humanidade: leveza, diversão e riso. Não via a si mesmo. Distraído com suas habilidades, com seus poderes e dúvidas, nunca entendia muito bem o sentido de sua vida. Soa familiar?
 
O roteiro passeia por lugares já descritos pelas artes. A cooperação como o único caminho para a restauração daquilo que é precioso. As alegrias e os sustos da aventura do viver. O medo a fragilizar aquilo que nosso coração sábio vivencia. As perguntas que nos surgem ao longo de toda a caminhada: quem sou? Qual o sentido de ser quem sou? O que é real? O que dota minha existência de realidade e sentido? Quais são os tesouros que valem nossa guarda e cuidado? E como lidar com o medo? Como tirá-lo de seu esconderijo embaixo da cama e lidar com ele?

O medo existe, atua. Pode nos paralisar completamente, ou nos movimentar na direção de belos renascimentos. De algum modo, podemos nos transformar em guardiões do olhar de encantamento e das capacidades de trazer leveza à vida, sonhar e cuidar dos sonhos e das memórias. Encontrar um espaço para que o medo siga existindo sem exaurir aquilo que nos torna visíveis, sem derrotar nossas possibilidades de dotar de sentido tudo o que surge diante de nós, tudo o que nos habita. Encontrar espaços para ser. Descortinar esse encantamento do olhar que faz com que tudo surja – nuvens negras ou douradas.
 
Na prosa de depois, em meio às muitas reflexões, surgiram algumas memórias dos tempos de infância, cenas vividas na crença em Papai Noel, cenas vividas na presença dele, e contemplamos a importância desses personagens todos, esse jeito lúdico de vivenciar tesouros.
 
E agora as fadinhas do dente me trouxeram à lembrança uma propaganda da minha infância que colocava um importante enigma: “Tostines vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais?”
 
Afinal, acredito porque vejo ou vejo porque acredito?

                                                                          por Teresa Bessil

quarta-feira, 19 de março de 2014

Árvore da Vida

 
 
 
No último sábado, dia 15 de março, tivemos mais um encontro do Peteca Movies. Desta vez, o filme escolhido foi “A Árvore da Vida”, filme peculiar que sempre provoca reações diversas, mas também permite algumas boas reflexões.

Como o Peteca... Filosófica Social Clube pretende ser justamente um espaço para se compartilhar reflexões, aqui estão algumas das minhas.

Penso que talvez não seja tão interessante buscar "explicar" o filme. Não podemos "dizer" o filme melhor do que o próprio. Filmes como este são mais experiências estéticas, e, assim como a música e a poesia, perdem muito quando tentamos traduzi-los para alguma outra forma narrativa. Ainda assim, ou talvez justamente por isso, cada um de nós certamente apreende um significado para o filme a partir da forma como o vivencia.
Da forma que vejo, o tema do filme é a própria vida. Não é a estória sobre um menino ou mesmo sobre uma família e suas relações típicas de determinada época. Não, o filme quer "filmar" a vida. E como filmar a vida?

Antes de olhar para essa questão, uma outra já se apresenta: o que é a vida? Essa deveria ser uma pergunta fácil de responder, afinal todos nós estamos vivos. A vida é algo de muito imediato, e portanto, deveria ser algo imediatamente transparente a todos nós.

O que é a vida?

Uma resposta bem direta seria algo assim: vida é a propriedade que algumas coisas possuem de realizar tais e tais processos físico-químicos. No mundo existem muitas coisas, algumas vivas, outras não. Logo, a vida seria uma propriedade que algumas dessas coisas que existem por ai possuem. A vida seria uma propriedade nossa, assim como a cor de nossa pele, cabelo, o fato de respirarmos oxigênio, etc.

Agora, se olhamos cuidadosamente para nossa existência e tudo - tudo mesmo – o que nos cerca, será que a vida se mostra realmente como algo que nós temos? É algo nosso? É de nossa propriedade? Ou deixando de lado as respostas mais imediatas, e com esse olhar cuidadoso em relação a tudo o que se deu e tudo o que se dá agora em nossa vida, não seria o caso de nos ocorrer justamente à idéia oposta? Ou seja, que é a vida que nos tem. Não é a vida que nos pertence, nós é que pertencemos à vida.
Quando detemos um pouco nosso olhar, as coisas podem se mostrar mais ricas do que imaginávamos previamente. E ai, nessas aberturas, encontramos o convite ao mistério, com seu espanto e assombro.
O que é a vida? Como filmar a vida?

A vida não é uma coisa entre outras coisas. Podemos filmar elefantes, casas, maçãs, papai noel, traições, guerras, mas a vida não é uma coisa entre outras coisas. Não está ai no mundo como tudo mais.

Voltemos ao filme.Nele, a mãe nos conta um ensinamento que ainda criança ouviu das freiras.

"As freiras ensinam que há dois caminhos na vida. O caminho da Natureza e o caminho da Graça. A Graça não procura satisfazer a si mesma. Ela aceita não ser amada, aceita insultos, aceita ser ferida e menosprezada. A Natureza só quer satisfazer a si mesma. E fazer com que os outros a satisfaçam. Quer tiranizá-los. E que façam sua vontade. Encontra razões para ser infeliz quando o amor está sorrindo em todas as coisas. É preciso escolher qual caminho você vai seguir".

E acrescentam: "Quem ama o caminho da Graça jamais terá um triste fim".

Graça e natureza, duas formas de viver, dois modos de ser. Essa distinção apresentada logo no início do filme vai atravessar toda sua estória.
A vida é encontrada então nas formas de viver. Se a vida não é uma coisa, talvez a vida não seja um "quê", mas sim um "como".

Na forma em que são expostas as idéias de Graça e Natureza, elas se aproximariam de algo como altruísmo e egoísmo. Penso ser mais fiel ao filme compreendê-las como dádiva e conquista.

A mãe e o pai encenam justamente essa tensão dádiva/conquista.

Filma-se a vida no seu acontecer, no como ser-vida da vida do menino. O acontecimento vida se dá no seu dia-a-dia. Ali onde o mais simples e ordinário acontece, Correndo na grama, olhando a chuva, descobrindo personagens no centro da cidade, descobrindo a mortalidade, etc. Em cada acontecimento sempre está presente a apreensão da vida como dádiva e conquista. Às vezes de forma harmônica, às vezes não. Pacífica ou violentamente. É o próprio menino que nos conta que essas forças estão sempre lutando dentro dele.

Também fazendo justiça ao filme, não devemos reduzir Graça/Natureza ou dádiva/conquista ao mero ser bom ou ser mau, ser espiritualizado ou ser materialista. Não, o acontecer da vida do menino nos mostra que sua vida - como a nossa – é, sim, uma dádiva, algo que nos é dado, uma possibilidade, mas possibilidade que nos é dada como tarefa, algo a ser realizado. A vida nunca se mostra pronta e acabada; antes, é sempre algo que nos solicita, sempre e de novo, a ação e resposta. Vivendo o menino é chamado, convidado a se conquistar, a conquistar o si-mesmo. O pai, a mãe e o irmão acontecem na vida do menino, todos esses personagens vivem em sua vida e sua vida, o encontrar-se ou perder-se de si-mesmo, depende da forma de responder a esses convites.

Como as árvores do filme, temos que nos erguer por nós mesmos, e isso é também a dádiva. Dádiva e conquista não são opostos, são caminhos de realização da liberdade. Sempre interagindo, a dádiva eleva a conquista, que por sua vez dinamiza a dádiva. Como não existem garantias, muitas vezes nos perdemos pelo caminho e, mais frequentemente ,perdemos a dádiva de vista - o que aconteceu com o pai. Desse modo, vamos nos ver em perigo, sozinhos, e nossa vida passa a ser vivida na forma do “eu contra os outros”.

Graça e Natureza, duas formas, dois modos de se estar na vida. Talvez haja algo de verdadeiro no ensinamento das freiras.

por Marco Aurélio Zago
Ver mais

domingo, 16 de março de 2014

Tudo aconteceu em Elizabethtown

 
 
 
 
 
 
O fio de nossa prosa vai seguindo. Vida e morte. Encontros. Abertura. Possibilidades. O filme – Tudo acontece em Elizabethtown - tem um jeito leve, embora comece com duas mortes: uma morte em vida - espetacular fracasso profissional – e uma morte morrida mesmo, dessas que terminam em caixão ou urna de cinzas. Ou em ambos, como bem foi o caso.

Seja como for, morrer é sempre acontecimento complexo.... Há vezes em que chega de um jeito rápido e fulminante. De outras vezes, vai chegando bem devagar, a vitalidade sumindo e voltando, um brilho que desbota, mas não desaparece. Fulminante ou lento, morrer é processo delicado. Pode ser assustador. Pode ser alívio. Pode desaguar em novos modos de viver, liberando energias contidas. Ou pode fazer tudo desandar e gerar ainda mais controle, aflição e paralisia. Morrer é como viver: acontece de um tudo.

Demissões, separações e outras tantas ocasiões oferecem essa experiência misteriosa de morte em vida. De modo lento e arrastado, ou bem rápido e desconcertante, seja lá como for, quase todo mundo já morreu em vida. Um monte de vezes. Algumas vezes até nos sentimos “seguindo uma luz”, e a tal morte parece que nem vai doer, de tão focados que estamos em renascer em algum outro lugar, em companhia de outras pessoas, talvez outro endereço, quem sabe outro estilo, novo corte de cabelo e repertório. Tem morte que é um pouco assim, vai surgindo como um final bem vindo, um espreitar quase contente do que ainda virá. Outras tantas vezes, entretanto, há somente escuridão, uma sensação de derrota, um fim que chega à nossa total revelia e nos arrasa, ou nos deixa como fantasmas, com um ar meio idiota. Nossa vida acabou, mas ainda estamos vivos. Sem qualquer pista a seguir ou vento bom pra inspirar. E agora?

Em tempos nos quais a juventude e vitalidade se apresentam como valores maiores da vida, até mesmo as mortes morridas trazem alguma sensação de fracasso, como se a morte fosse uma espécie de derrota da vida e não seu desdobramento natural, parte integrante, indispensável.
Muitas vezes as grandes/pequenas mudanças são vividas por nós como um fracasso que nos imobiliza e nos cega a outras possibilidades que seguem vivas. Sim, um fracasso profissional pode ser tão estrondoso e desgostoso que nunca mais conseguiremos nascer naquele ofício ou profissão. É fato. Mas talvez um ou outro fracasso acabe se transformando no que de melhor poderia ter acontecido. Claro que só nos damos conta na sequência, quando olhamos em perspectiva para nossa trajetória e percebemos que justamente ao entrar naquela tal “esquina errada" acabamos descobrindo tesouros pra lá de raros. Vez em quando é um estranhamento que nos consome. A sequência de "esquinas erradas" parece não acabar, e nenhum tesouro nos surge. O que não significa exatamente que não exista. Quem sabe apenas ainda não nos demos conta. Quem sabe? Esquinas. Bifurcações. Elas podem nos levar a lugares muito distantes do que havíamos sonhado. Mas talvez nem sempre isso seja assim tão ruim. Quem sabe?

Refletindo um cadinho mais sobre essa coisa do viver e morrer, outro tema nos toca: a delicadeza do tempo. Muitas vezes o tempo de viver dores e tristezas é justo aquilo que nos permite seguir adiante. Sem negar, disfarçar ou se prender. Sem apressar coisa alguma. Apenas vivenciar a tristeza. No tempo que for.

A delicadeza do tempo anda meio esquecida. Há uma pressa que vai sendo sussurrada, uma necessidade que criamos de logo deixar tudo resolvido. Como se a vida – e a morte – fosse tão somente um problema à espera de soluções.

O filme toca nesse ponto do tempo da travessia, e naquilo que nos acontece ao longo do caminho. Aquilo que se dá no tempo, e que muitas vezes demanda abertura e alguma coragem, até então oculta, de rir e chorar, por exemplo.

Através dos mapas, trilha sonora e leveza oferecidos por Claire, vamos seguindo com Drew pela estrada. Sozinho - ou nem tanto - amparado pela delicadeza do tempo, em meio àquelas mortes e encontros inusitados, ele segue sua viagem de volta pra casa.

Mesmo seguindo mapas extremamente detalhados, nada parece ser garantido. Mais do que o risco de nos perdermos, há o risco de não nos darmos conta do caminho e das possibilidades que surgem diante de nós. Mapas e planejamentos nada garantem. Mapas são apenas convites. Buscamos a vida que pulsa. Traçamos roteiros improváveis. Sabemos pouco ou quase nada. Mas seguimos esse pulsar misterioso.

Convites. Encontros como os de Drew e Claire muitas vezes chegam com um ar meio leve e casual, e acabam promovendo generosas aberturas. São convites. Possibilidades.

A vida é meio assim. Um encontro, ainda que casual, às vezes oferece esse risco. Pode mudar nossos planos e trajetos, gerar aberturas inusitadas. E acabamos encontrando a nós mesmos, encontrando mundos.

As pequenas/grandes mortes também podem ser meio assim. Um jeito inusitado de afrouxar os nós - que pareciam tão apertados - e restaurar laços.

Laço e nó. Vida e morte. Encontros. Mundos.

O filme é leve, mas toca em temas que atravessam nosso caminho. Começa olhando mortes Termina olhando vidas.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Eu serei sua testemunha



“Eu serei sua testemunha” (*). Esse pequeno e comovente diálogo segue movimentando meu coração há dias. Para dar contorno aos sentimentos, recorro ao silêncio e às palavras. E como palavra é coisa misteriosa e marota, vou até o dicionário, um antigo e pesado Aurélio que ganhei de presente de meu pai na década de 90. E vou olhando palavras enquanto sigo espreitando sentidos/sentimentos. Fazia um tempo que não brincava com dicionário. Mais do que revelador e divertido, pode se tornar um passeio de saborosas surpresas.
 
O dicionário confirma. Testemunha- pessoa chamada a assistir certos atos autênticos ou solenes; coisa que atesta a verdade de algum fato.
 
Pessoa chamada a assistir. A vida nos chama. Chamamos a vida. Viver ao lado de alguém pode se tornar esse chamado, aquilo que torna minha vida solene. Testemunha, aquele que ao atender o chamado dá verdade a cada coisa vivida. Aquele que me nota, que transforma o que vivo em algo notável, digno de nota, atenção ou reparo. Digno de apreciação, essencial, importante. Em uma relação podemos ser essa presença que torna a vida de alguém em algo notável, dotado de sentido, importante e vivo. Presença que atesta a verdade de tudo o que tenho vivido, ainda que aquilo que vivo seja tão múltiplo, móvel, efêmero, instável, aberto, reconfigurável. E talvez justo por ser assim, o que vivo seja notável.
 
Conta o dicionário que testemunhar é dar testemunho acerca de, confirmar, comprovar, demonstrar. E ainda manifestar, expressar, revelar.
 
Se você testemunha o que vivo, esse talvez seja o modo mais sublime de revelar aquilo que vivo. Através do seu olhar, minha vida se expressa. Através da sua presença, minha vida se mostra. Seu olhar confirma e revela quem sou. Mesmo sendo muitos, mesmo sendo tantos, mesmo sendo algo tão aberto, mutável, permeável.
 
Meu amigo Aurélio traz uma bela citação de Manuel Bandeira: “Anunciaram que você morreu. Meus olhos, meus ouvidos testemunham. A alma profunda, não”.
 
É preciso pois testemunhar não somente com olhos e ouvidos. Sim, há muitos que nos vêem passar. Olham somente com os olhos, e talvez por isso não nos vejam. Há muitos que só nos ouvem palavras. Mas testemunhar de modo amoroso, no sentido de revelar, é coisa a ser feita com alma, coração e coragem.
 
Há uma sublime delicadeza em quem nos testemunha com alma profunda e ouve além da sequência de nossas palavras. Não porque entenda ou adivinhe o sentido que damos às palavras. Afinal, nem sempre nossas palavras trazem qualquer sentido. Muitas vezes são meramente exercícios particulares, jeitos de nos manifestarmos. Palavras e silêncios vez por outra surgem meio sem jeito, sem graça. Mas ainda assim, a presença de alguém a nos ouvir com alma profunda vai derramando graça em tudo o que se passa. E talvez assim tudo passe de um jeito mais ameno, mais aberto. Talvez aquele que testemunha meu medo possa dotar esse medo não só de algum sentido, mas também de leveza. Talvez possa dotar esse medo de uma verdade quase onírica, talvez possa até mesmo recuperar o espaço que o medo me toma, para que eu possa simplesmente... sentir medo. Para que eu finalmente sossegue em meio ao medo, sem fugir ou negá-lo. Talvez aquele que me testemunha com alma profunda possa revelar a vida que vivo de um modo naturalmente valioso, sem tanta gravidade ou alarde. Ser autêntico talvez seja apenas ser simples. Ser verdadeiramente importante talvez seja tão somente ser importado para dentro da vida e coração de alguém.
 
Fico horas saboreando palavras, descortinando sentidos/sentimentos. Testemunhar é ser chamado a assistir. E volto ao amigo Aurélio, que me conta o que já desconfio. “Assistir” traz um sentido bastante conhecido de auxiliar, socorrer, favorecer, acompanhar. Mas é também estar presente, comparecer, residir, morar. Pronto, era isso que meu coração adivinhava. Se você é testemunha amorosa de minha vida, aquele que atendeu o chamado a assistir minhas aventuras, sonhos, pesadelos, tesouros, mortes, céus, nuvens, flores e silêncios,  isso se dá não somente porque está por perto e me testemunha com olhos e ouvidos, mas porque você faz morada em minha vida. E se a cada momento a vida me chama, com tantos desafios e bênçãos, a cada momento,  também eu faço morada em sua alma, essa alma profunda, que tão delicada e misteriosamente me testemunha.
 
                                                                                     por Teresa Bessil
 
(*)  Tradução do diálogo do clip.
 
BEV – “Todas essas promessas que fazemos e quebramos... Em sua opinião, por que as pessoas se casam?”
 
DETETIVE – “Paixão”.
 
BEV – “Não”
 
DETETIVE – “Curioso, achei que você fosse uma mulher romântica. Por que então as pessoas se casam?”
 
BEV – “Porque nós precisamos de uma testemunha para nossas vidas. Bilhões de pessoas no planeta... O que a vida de cada um de nós significa? Mas, em um casamento, você promete cuidar/olhar cada coisa. As coisas boas, as ruins, as coisas terríveis, as absolutamente corriqueiras. Tudo, todo o tempo. A cada dia você está dizendo: sua vida não passará em branco, porque eu irei notá-la. Sua vida não passará sem testemunho, porque eu serei sua testemunha”.