quarta-feira, 19 de março de 2014

Árvore da Vida

 
 
 
No último sábado, dia 15 de março, tivemos mais um encontro do Peteca Movies. Desta vez, o filme escolhido foi “A Árvore da Vida”, filme peculiar que sempre provoca reações diversas, mas também permite algumas boas reflexões.

Como o Peteca... Filosófica Social Clube pretende ser justamente um espaço para se compartilhar reflexões, aqui estão algumas das minhas.

Penso que talvez não seja tão interessante buscar "explicar" o filme. Não podemos "dizer" o filme melhor do que o próprio. Filmes como este são mais experiências estéticas, e, assim como a música e a poesia, perdem muito quando tentamos traduzi-los para alguma outra forma narrativa. Ainda assim, ou talvez justamente por isso, cada um de nós certamente apreende um significado para o filme a partir da forma como o vivencia.
Da forma que vejo, o tema do filme é a própria vida. Não é a estória sobre um menino ou mesmo sobre uma família e suas relações típicas de determinada época. Não, o filme quer "filmar" a vida. E como filmar a vida?

Antes de olhar para essa questão, uma outra já se apresenta: o que é a vida? Essa deveria ser uma pergunta fácil de responder, afinal todos nós estamos vivos. A vida é algo de muito imediato, e portanto, deveria ser algo imediatamente transparente a todos nós.

O que é a vida?

Uma resposta bem direta seria algo assim: vida é a propriedade que algumas coisas possuem de realizar tais e tais processos físico-químicos. No mundo existem muitas coisas, algumas vivas, outras não. Logo, a vida seria uma propriedade que algumas dessas coisas que existem por ai possuem. A vida seria uma propriedade nossa, assim como a cor de nossa pele, cabelo, o fato de respirarmos oxigênio, etc.

Agora, se olhamos cuidadosamente para nossa existência e tudo - tudo mesmo – o que nos cerca, será que a vida se mostra realmente como algo que nós temos? É algo nosso? É de nossa propriedade? Ou deixando de lado as respostas mais imediatas, e com esse olhar cuidadoso em relação a tudo o que se deu e tudo o que se dá agora em nossa vida, não seria o caso de nos ocorrer justamente à idéia oposta? Ou seja, que é a vida que nos tem. Não é a vida que nos pertence, nós é que pertencemos à vida.
Quando detemos um pouco nosso olhar, as coisas podem se mostrar mais ricas do que imaginávamos previamente. E ai, nessas aberturas, encontramos o convite ao mistério, com seu espanto e assombro.
O que é a vida? Como filmar a vida?

A vida não é uma coisa entre outras coisas. Podemos filmar elefantes, casas, maçãs, papai noel, traições, guerras, mas a vida não é uma coisa entre outras coisas. Não está ai no mundo como tudo mais.

Voltemos ao filme.Nele, a mãe nos conta um ensinamento que ainda criança ouviu das freiras.

"As freiras ensinam que há dois caminhos na vida. O caminho da Natureza e o caminho da Graça. A Graça não procura satisfazer a si mesma. Ela aceita não ser amada, aceita insultos, aceita ser ferida e menosprezada. A Natureza só quer satisfazer a si mesma. E fazer com que os outros a satisfaçam. Quer tiranizá-los. E que façam sua vontade. Encontra razões para ser infeliz quando o amor está sorrindo em todas as coisas. É preciso escolher qual caminho você vai seguir".

E acrescentam: "Quem ama o caminho da Graça jamais terá um triste fim".

Graça e natureza, duas formas de viver, dois modos de ser. Essa distinção apresentada logo no início do filme vai atravessar toda sua estória.
A vida é encontrada então nas formas de viver. Se a vida não é uma coisa, talvez a vida não seja um "quê", mas sim um "como".

Na forma em que são expostas as idéias de Graça e Natureza, elas se aproximariam de algo como altruísmo e egoísmo. Penso ser mais fiel ao filme compreendê-las como dádiva e conquista.

A mãe e o pai encenam justamente essa tensão dádiva/conquista.

Filma-se a vida no seu acontecer, no como ser-vida da vida do menino. O acontecimento vida se dá no seu dia-a-dia. Ali onde o mais simples e ordinário acontece, Correndo na grama, olhando a chuva, descobrindo personagens no centro da cidade, descobrindo a mortalidade, etc. Em cada acontecimento sempre está presente a apreensão da vida como dádiva e conquista. Às vezes de forma harmônica, às vezes não. Pacífica ou violentamente. É o próprio menino que nos conta que essas forças estão sempre lutando dentro dele.

Também fazendo justiça ao filme, não devemos reduzir Graça/Natureza ou dádiva/conquista ao mero ser bom ou ser mau, ser espiritualizado ou ser materialista. Não, o acontecer da vida do menino nos mostra que sua vida - como a nossa – é, sim, uma dádiva, algo que nos é dado, uma possibilidade, mas possibilidade que nos é dada como tarefa, algo a ser realizado. A vida nunca se mostra pronta e acabada; antes, é sempre algo que nos solicita, sempre e de novo, a ação e resposta. Vivendo o menino é chamado, convidado a se conquistar, a conquistar o si-mesmo. O pai, a mãe e o irmão acontecem na vida do menino, todos esses personagens vivem em sua vida e sua vida, o encontrar-se ou perder-se de si-mesmo, depende da forma de responder a esses convites.

Como as árvores do filme, temos que nos erguer por nós mesmos, e isso é também a dádiva. Dádiva e conquista não são opostos, são caminhos de realização da liberdade. Sempre interagindo, a dádiva eleva a conquista, que por sua vez dinamiza a dádiva. Como não existem garantias, muitas vezes nos perdemos pelo caminho e, mais frequentemente ,perdemos a dádiva de vista - o que aconteceu com o pai. Desse modo, vamos nos ver em perigo, sozinhos, e nossa vida passa a ser vivida na forma do “eu contra os outros”.

Graça e Natureza, duas formas, dois modos de se estar na vida. Talvez haja algo de verdadeiro no ensinamento das freiras.

por Marco Aurélio Zago
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