Isadora é moça de alegrias
simples e sonhos contentes. Sai de casa bem cedo todo dia, e só volta depois do
céu escurecido. Gosta da vida que leva. Certo dia Isadora fez um outro trajeto
em sua manhã e se deparou com um canteiro de flores. Muitas flores, em cores e
formas variadas. Achou aquilo tudo tão bonito que pensou com os botões que nem
tinha: amanhã passo por aqui de novo. E assim fez. Manhã seguinte lá se foi Isadora
ao encontro do canteiro de muitas flores. Levava consigo uma afiada tesoura de
corte. Bem cuidadosa, cortou com precisão e extrema ternura várias flores, a
maioria delas ainda em botão. No local do corte, cuidou de colocar um algodão
embebido em água, para bem cuidar de cada flor. Isadora é moça de alegrias
simples, sonhos contentes e sabe cuidar bem de tudo que vive.
Em casa, tirou do armário um
bonito vaso de cristal que alguém lhe dera de presente, sabe lá quando ou por
que motivo. Cuidadosamente foi colocando as flores no vaso, fluindo na belezura
de cada flor e adivinhando o belíssimo conjunto que ali surgiria em alguns
minutos. Pois foi desse jeito mesmo. Logo a sala estava mais nobre, bonita e
perfumada que nunca. De tão contente, Isadora tirou uns dias de folga de seus
afazeres comuns e se lançou a testemunhar a beleza daquilo tudo. Botões iam se
abrindo, cada um em seu próprio ritmo e formato. E aquilo era tão tocante que
Isadora convidou amigos e vizinhos para que outras gentes também respirassem
tais acontecidos. Era um jeito bom de viver tudo aquilo. E mesmo quando os
botões seguiram seu destino de flor madura que fenece, algo de muito singelo e
ainda assim espetacular ali residia. E os amigos e vizinhos continuavam a lhe
visitar talvez porque Isadora também fosse cumprindo seu destino de florescer.
Quando porventura fenecer, a beleza, perfume e nobreza daquelas flores talvez
sigam com ela.
Isabela é uma outra moça, de
sonhos e alegrias desconhecidas por quem lhes escreve. Sabe-se dela muito
pouco, mas tem um jeito bonito de olhar para quem passa e dizer bom dia. Faz
nascer pequenos sorrisos por todo lado. À noite, ela segue em silêncio. Ninguém
sabe os motivos, mas ela não diz boa noite aos que encontra em seu caminho de
volta para casa. Uns dizem que é triste. Outros dizem que é quieta demais. Uns
nada dizem, apenas adivinham pequenos sorrisos vivendo em seu coração.
Isabela mora em bairro
distante de Isadora. As moças não se conhecem e talvez por isso Isabela não
tenha sido convidada a frequentar a sala de Isadora, que como já lhes disse,
seguiu bem bonita mesmo depois da passagem das flores. Há quem diga que aquele
vaso de flores era encantado, de fazer contente muitas gentes. Talvez fosse
mesmo. Lá não estive, mas bem posso adivinhar tais efeitos.
Um dia nossa Isabela passou
por muitas pessoas, a todos dizendo bom dia. Distraída com todos aqueles
pequenso sorrisos, acabou fazendo outro caminho. E se deparou com um canteiro
de flores. Muitas flores,em cores e
formas variadas. Achou aquilo tudo tão bonito que pensou com os botões que nem
tinha: amanhã passo por aqui de novo. E assim fez. Depois de muito bom dia
distribuído, lá estava ela diante do canteiro novamente. Olhava aquilo tudo, e
sentia coisas que nem sabia existir. E foi ficando parecida com as flores. Foi
ficando variada em cores, perfumes e formas. Desde esse dia, Isabela passou a
alterar seus caminhos para estar na presença das flores. Acompanhava o destino
de cada uma delas. E também as flores pareciam acompanhar o destino de Isabela.
Que passou a dizer boa noite a quem encontrasse na rua e nos sonhos. Há quem diga
que sua tristeza virou poesia e já não doía em mais ninguém. Ao contrário, seu
jeito de flor parecia encantar os lugares pelos quais passava. Deixava tudo
bonito, nobre e perfumado. E tratava de modular seu caminho para estar diante
de flor. Talvez tenha sido exatamente assim. Lá não estive, mas bem posso
adivinhar tais efeitos.
Isabela alterava rota para
estar diante das flores e nelas viver. As flores que Isadora levou para casa
certamente mudaram seu mundo.
Isabela e Isadora são moças
simples, cujos sonhos e alegrias não saberia lhes descrever. O que sei é que
amavam flores. E nisso sentiam a vida. Isadora mudou sua casa, a si mesma e a
todos que em sua casa estiveram. Isabela mudou seu caminho pelo mundo, a si
mesma e a todos que encontrou. Tenho cá com os botões que nem tenho que as duas
viraram flor e exalam perfumes que nos chegam assim de repente, sem que haja
flores em volta.
Modos de estar, modos de amar,
modos de viver. Tudo vida.
(Texto de Teresa Bessil)

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