quinta-feira, 17 de julho de 2014

Isabela e Isadora




Isadora é moça de alegrias simples e sonhos contentes. Sai de casa bem cedo todo dia, e só volta depois do céu escurecido. Gosta da vida que leva. Certo dia Isadora fez um outro trajeto em sua manhã e se deparou com um canteiro de flores. Muitas flores, em cores e formas variadas. Achou aquilo tudo tão bonito que pensou com os botões que nem tinha: amanhã passo por aqui de novo. E assim fez. Manhã seguinte lá se foi Isadora ao encontro do canteiro de muitas flores. Levava consigo uma afiada tesoura de corte. Bem cuidadosa, cortou com precisão e extrema ternura várias flores, a maioria delas ainda em botão. No local do corte, cuidou de colocar um algodão embebido em água, para bem cuidar de cada flor. Isadora é moça de alegrias simples, sonhos contentes e sabe cuidar bem de tudo que vive.

Em casa, tirou do armário um bonito vaso de cristal que alguém lhe dera de presente, sabe lá quando ou por que motivo. Cuidadosamente foi colocando as flores no vaso, fluindo na belezura de cada flor e adivinhando o belíssimo conjunto que ali surgiria em alguns minutos. Pois foi desse jeito mesmo. Logo a sala estava mais nobre, bonita e perfumada que nunca. De tão contente, Isadora tirou uns dias de folga de seus afazeres comuns e se lançou a testemunhar a beleza daquilo tudo. Botões iam se abrindo, cada um em seu próprio ritmo e formato. E aquilo era tão tocante que Isadora convidou amigos e vizinhos para que outras gentes também respirassem tais acontecidos. Era um jeito bom de viver tudo aquilo. E mesmo quando os botões seguiram seu destino de flor madura que fenece, algo de muito singelo e ainda assim espetacular ali residia. E os amigos e vizinhos continuavam a lhe visitar talvez porque Isadora também fosse cumprindo seu destino de florescer. Quando porventura fenecer, a beleza, perfume e nobreza daquelas flores talvez sigam com ela.

Isabela é uma outra moça, de sonhos e alegrias desconhecidas por quem lhes escreve. Sabe-se dela muito pouco, mas tem um jeito bonito de olhar para quem passa e dizer bom dia. Faz nascer pequenos sorrisos por todo lado. À noite, ela segue em silêncio. Ninguém sabe os motivos, mas ela não diz boa noite aos que encontra em seu caminho de volta para casa. Uns dizem que é triste. Outros dizem que é quieta demais. Uns nada dizem, apenas adivinham pequenos sorrisos vivendo em seu coração.

Isabela mora em bairro distante de Isadora. As moças não se conhecem e talvez por isso Isabela não tenha sido convidada a frequentar a sala de Isadora, que como já lhes disse, seguiu bem bonita mesmo depois da passagem das flores. Há quem diga que aquele vaso de flores era encantado, de fazer contente muitas gentes. Talvez fosse mesmo. Lá não estive, mas bem posso adivinhar tais efeitos.

Um dia nossa Isabela passou por muitas pessoas, a todos dizendo bom dia. Distraída com todos aqueles pequenso sorrisos, acabou fazendo outro caminho. E se deparou com um canteiro de flores. Muitas flores,em  cores e formas variadas. Achou aquilo tudo tão bonito que pensou com os botões que nem tinha: amanhã passo por aqui de novo. E assim fez. Depois de muito bom dia distribuído, lá estava ela diante do canteiro novamente. Olhava aquilo tudo, e sentia coisas que nem sabia existir. E foi ficando parecida com as flores. Foi ficando variada em cores, perfumes e formas. Desde esse dia, Isabela passou a alterar seus caminhos para estar na presença das flores. Acompanhava o destino de cada uma delas. E também as flores pareciam acompanhar o destino de Isabela. Que passou a dizer boa noite a quem encontrasse na rua e nos sonhos. Há quem diga que sua tristeza virou poesia e já não doía em mais ninguém. Ao contrário, seu jeito de flor parecia encantar os lugares pelos quais passava. Deixava tudo bonito, nobre e perfumado. E tratava de modular seu caminho para estar diante de flor. Talvez tenha sido exatamente assim. Lá não estive, mas bem posso adivinhar tais efeitos.

Isabela alterava rota para estar diante das flores e nelas viver. As flores que Isadora levou para casa certamente mudaram seu mundo.

Isabela e Isadora são moças simples, cujos sonhos e alegrias não saberia lhes descrever. O que sei é que amavam flores. E nisso sentiam a vida. Isadora mudou sua casa, a si mesma e a todos que em sua casa estiveram. Isabela mudou seu caminho pelo mundo, a si mesma e a todos que encontrou. Tenho cá com os botões que nem tenho que as duas viraram flor e exalam perfumes que nos chegam assim de repente, sem que haja flores em volta.

Modos de estar, modos de amar, modos de viver. Tudo vida.

(Texto de Teresa Bessil)

 

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