Estávamos na fase de pensar e preparar as atividades do Espaço da Lopes para o segundo semestre quando um dia me deparei com a seguinte frase de Alexandre Dumas:
" O homem não vive do que come, mas do que digere."
Na hora me lembrei que um dia muitos de nós cantamos (talvez tenhamos mais gritado do que cantado) junto com os Titãs: "Você tem fome de quê? Você tem sede de quê?"
Os anos 80 já se foram há um bom tempo, mas a pergunta é sempre atual: você tem fome de quê ?
Talvez agora tal pergunta surja
em outro contexto. O tempo passou, a vida se acelerou, e o aspecto de consumo parece se instalar em
tudo que está ao nosso redor. Na vertigem causada pela necessidade de maximizar
a eficiência, consumimos tudo. O mundo vai se transformando em um mercado.
Todos os aspectos da existência parecem sucumbir ao mandamento do consumo. Isso
é bom ou ruim ? Quem pode dizer?
O assunto é bastante complexo, e criar juízos de valores está totalmente
fora dessa nossa reflexão. O que sabemos é que em boa parte do tempo, diante da
variedade multicolorida do que nos é "vendido", nós acabamos por
"engolir sem mastigar", nós nos alimentamos sem saborear. Sem sabor é difícil possuir saber. De qualquer maneira, não importa, afinal amanhã já será tudo outro. Também foram os mesmo Titãs que compuseram "A melhor banda de todos os tempos da última semana". Saborear, digerir, quem tem tempo?
Nietzsch já nos chamava a atenção para a necessidade de cultivarmos
nossa qualidade "bovina", de ruminar. O que é esse ruminar se não o
próprio digerir?
Rubem Alves nos fala: " Há autores que li sem que os tivesse
amado. Não os devorei. Suas ideias ficaram guardadas na minha cabeça. Outros,
que amei, devorei. Passaram a fazer parte do meu corpo. Aquilo que se come não
continua sendo o mesmo, depois de comido. É assimilado - fica semelhante a mim.
Batatas, cenouras, e carnes, uma vez comidas, deixam de ser batatas, cenouras e
carnes. Passam a ser parte de mim mesmo, minha carne, meu sangue. Assim acontece
com os autores que devorei e cito. Só os cito porque se tornaram parte da minha
carne e do meu sangue. Eu os conheço "de cor" - isto é, como parte do
meu coração. Deixaram de ser eles. São eu."
Talvez algo do mal estar do cotidiano esteja aí. Sem tempo para digerir,
sem tempo para saborear, como saber? Como responder ao "você tem fome de quê?"
Sem devorar, sem digerir, do que é feito nossa carne, nosso sangue? Se
acompanhamos o pensar de Rubem Alves ,tudo torna-se idéia. Talvez esses sejam
indícios dessa imaterialidade e falta de
concretude, sentida como um grande vazio ao nosso redor.
Às vezes tudo pode parecer assustadoramente dificil. Mas não ha
necessidade de susto. Os temas são graves pela gravidade de nossas vidas. Nossa
vida nos importa. É a liberdade misteriosa do viver que nos lança de encontro a
nosso mundo e nos convoca para a realização do nosso ser.
Para saber-nos, temos que saborear o nosso viver. E talvez assim
torne-se mais fácil responder: você tem fome de quê?
É nesse contexto que surge nossa atenção especial com o saborear nas
atividades do Peteca Filosófica.
Em Peteca Movies somos levados para outros mundos,
outras vidas, mas que sempre guardam uma proximidade conosco. "Nada do
que é humano me é estranho", já nos dizia o poeta. Somos tocados por
histórias, sejam elas de ficção ou não, mas sempre humanas.
Em Conversas com...
saboreamos as palavras e os mundos surgidos a partir do olhar de alguns
autores/pensadores. De certo modo, a obra sempre espera esse diálogo e só se
realiza na leitura. Um livro depende dos olhos de quem o lê. Sem o leitor, não
há o autor. A leitura produz vida a quem lê - saboreia - e também a quem escreve.
Em Amor em curso buscamos maior familiaridade com
o tema do Amor. Não para criar um "Inmetro das relações", não para julgar ou
definir coisa alguma. É tão somente um trecho dessa aventura do viver.A vida nos convida e nos desafia a saboreá-la.
Se você quiser participar do menu degustação oferecido nas atividades do Peteca Filosófica Social Clube, entre em contato conosco ;)
Texto de Marco Zago, com levíssimas pitadas de Teresa Bessil

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