domingo, 16 de março de 2014

Tudo aconteceu em Elizabethtown

 
 
 
 
 
 
O fio de nossa prosa vai seguindo. Vida e morte. Encontros. Abertura. Possibilidades. O filme – Tudo acontece em Elizabethtown - tem um jeito leve, embora comece com duas mortes: uma morte em vida - espetacular fracasso profissional – e uma morte morrida mesmo, dessas que terminam em caixão ou urna de cinzas. Ou em ambos, como bem foi o caso.

Seja como for, morrer é sempre acontecimento complexo.... Há vezes em que chega de um jeito rápido e fulminante. De outras vezes, vai chegando bem devagar, a vitalidade sumindo e voltando, um brilho que desbota, mas não desaparece. Fulminante ou lento, morrer é processo delicado. Pode ser assustador. Pode ser alívio. Pode desaguar em novos modos de viver, liberando energias contidas. Ou pode fazer tudo desandar e gerar ainda mais controle, aflição e paralisia. Morrer é como viver: acontece de um tudo.

Demissões, separações e outras tantas ocasiões oferecem essa experiência misteriosa de morte em vida. De modo lento e arrastado, ou bem rápido e desconcertante, seja lá como for, quase todo mundo já morreu em vida. Um monte de vezes. Algumas vezes até nos sentimos “seguindo uma luz”, e a tal morte parece que nem vai doer, de tão focados que estamos em renascer em algum outro lugar, em companhia de outras pessoas, talvez outro endereço, quem sabe outro estilo, novo corte de cabelo e repertório. Tem morte que é um pouco assim, vai surgindo como um final bem vindo, um espreitar quase contente do que ainda virá. Outras tantas vezes, entretanto, há somente escuridão, uma sensação de derrota, um fim que chega à nossa total revelia e nos arrasa, ou nos deixa como fantasmas, com um ar meio idiota. Nossa vida acabou, mas ainda estamos vivos. Sem qualquer pista a seguir ou vento bom pra inspirar. E agora?

Em tempos nos quais a juventude e vitalidade se apresentam como valores maiores da vida, até mesmo as mortes morridas trazem alguma sensação de fracasso, como se a morte fosse uma espécie de derrota da vida e não seu desdobramento natural, parte integrante, indispensável.
Muitas vezes as grandes/pequenas mudanças são vividas por nós como um fracasso que nos imobiliza e nos cega a outras possibilidades que seguem vivas. Sim, um fracasso profissional pode ser tão estrondoso e desgostoso que nunca mais conseguiremos nascer naquele ofício ou profissão. É fato. Mas talvez um ou outro fracasso acabe se transformando no que de melhor poderia ter acontecido. Claro que só nos damos conta na sequência, quando olhamos em perspectiva para nossa trajetória e percebemos que justamente ao entrar naquela tal “esquina errada" acabamos descobrindo tesouros pra lá de raros. Vez em quando é um estranhamento que nos consome. A sequência de "esquinas erradas" parece não acabar, e nenhum tesouro nos surge. O que não significa exatamente que não exista. Quem sabe apenas ainda não nos demos conta. Quem sabe? Esquinas. Bifurcações. Elas podem nos levar a lugares muito distantes do que havíamos sonhado. Mas talvez nem sempre isso seja assim tão ruim. Quem sabe?

Refletindo um cadinho mais sobre essa coisa do viver e morrer, outro tema nos toca: a delicadeza do tempo. Muitas vezes o tempo de viver dores e tristezas é justo aquilo que nos permite seguir adiante. Sem negar, disfarçar ou se prender. Sem apressar coisa alguma. Apenas vivenciar a tristeza. No tempo que for.

A delicadeza do tempo anda meio esquecida. Há uma pressa que vai sendo sussurrada, uma necessidade que criamos de logo deixar tudo resolvido. Como se a vida – e a morte – fosse tão somente um problema à espera de soluções.

O filme toca nesse ponto do tempo da travessia, e naquilo que nos acontece ao longo do caminho. Aquilo que se dá no tempo, e que muitas vezes demanda abertura e alguma coragem, até então oculta, de rir e chorar, por exemplo.

Através dos mapas, trilha sonora e leveza oferecidos por Claire, vamos seguindo com Drew pela estrada. Sozinho - ou nem tanto - amparado pela delicadeza do tempo, em meio àquelas mortes e encontros inusitados, ele segue sua viagem de volta pra casa.

Mesmo seguindo mapas extremamente detalhados, nada parece ser garantido. Mais do que o risco de nos perdermos, há o risco de não nos darmos conta do caminho e das possibilidades que surgem diante de nós. Mapas e planejamentos nada garantem. Mapas são apenas convites. Buscamos a vida que pulsa. Traçamos roteiros improváveis. Sabemos pouco ou quase nada. Mas seguimos esse pulsar misterioso.

Convites. Encontros como os de Drew e Claire muitas vezes chegam com um ar meio leve e casual, e acabam promovendo generosas aberturas. São convites. Possibilidades.

A vida é meio assim. Um encontro, ainda que casual, às vezes oferece esse risco. Pode mudar nossos planos e trajetos, gerar aberturas inusitadas. E acabamos encontrando a nós mesmos, encontrando mundos.

As pequenas/grandes mortes também podem ser meio assim. Um jeito inusitado de afrouxar os nós - que pareciam tão apertados - e restaurar laços.

Laço e nó. Vida e morte. Encontros. Mundos.

O filme é leve, mas toca em temas que atravessam nosso caminho. Começa olhando mortes Termina olhando vidas.

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