terça-feira, 29 de julho de 2014

Para saborear




Estávamos na fase de pensar e preparar as atividades do Espaço da Lopes para o segundo semestre quando um dia me deparei com a seguinte frase de Alexandre Dumas:  
" O homem não vive do que come, mas do que digere."

Na hora me lembrei que um dia muitos de nós cantamos (talvez tenhamos mais  gritado  do que cantado) junto com os Titãs:  "Você tem fome de quê?  Você tem sede de quê?"

Os anos 80 já se foram há um bom tempo, mas a pergunta é sempre atual: você tem fome de quê ?

Talvez agora tal pergunta surja  em outro contexto. O tempo passou, a vida se acelerou,  e o aspecto de consumo parece se instalar em tudo que está ao nosso redor. Na vertigem causada pela necessidade de maximizar a eficiência, consumimos tudo. O mundo vai se transformando em um mercado. Todos os aspectos da existência parecem sucumbir ao mandamento do consumo. Isso é bom ou ruim ? Quem pode dizer?
O assunto é bastante complexo, e criar juízos de valores está totalmente fora dessa nossa reflexão. O que sabemos é que em boa parte do tempo, diante da variedade multicolorida do que nos é "vendido", nós acabamos por "engolir sem mastigar", nós nos alimentamos sem saborear.

Sem sabor é difícil possuir saber. De qualquer maneira, não importa, afinal  amanhã já será tudo outro. Também foram os mesmo Titãs que compuseram "A melhor banda de todos os tempos da última semana". Saborear, digerir, quem tem tempo?

Nietzsch já nos chamava a atenção para a necessidade de cultivarmos nossa qualidade "bovina", de ruminar. O que é esse ruminar se não o próprio digerir?
Rubem Alves nos fala: " Há autores que li sem que os tivesse amado. Não os devorei. Suas ideias ficaram guardadas na minha cabeça. Outros, que amei, devorei. Passaram a fazer parte do meu corpo. Aquilo que se come não continua sendo o mesmo, depois de comido. É assimilado - fica semelhante a mim. Batatas, cenouras, e carnes, uma vez comidas, deixam de ser batatas, cenouras e carnes. Passam a ser parte de mim mesmo, minha carne, meu sangue. Assim acontece com os autores que devorei e cito. Só os cito porque se tornaram parte da minha carne e do meu sangue. Eu os conheço "de cor" - isto é, como parte do meu coração. Deixaram de ser eles. São eu."

Talvez algo do mal estar do cotidiano esteja aí. Sem tempo para digerir, sem tempo para saborear, como saber? Como responder ao  "você tem fome de quê?"
Sem devorar, sem digerir, do que é feito nossa carne, nosso sangue? Se acompanhamos o pensar de Rubem Alves ,tudo torna-se idéia. Talvez esses sejam indícios  dessa imaterialidade e falta de concretude, sentida como um grande vazio ao nosso redor.

Às vezes tudo pode parecer assustadoramente dificil. Mas não ha necessidade de susto. Os temas são graves pela gravidade de nossas vidas. Nossa vida nos importa. É a liberdade misteriosa do viver que nos lança de encontro a nosso mundo e nos convoca para a realização do nosso ser.
Para saber-nos, temos que saborear o nosso viver. E talvez assim torne-se mais fácil responder: você tem fome de quê?

É nesse contexto que surge nossa atenção especial com o saborear nas atividades do Peteca Filosófica.
Em Peteca Movies somos levados para outros mundos, outras vidas, mas que sempre guardam uma proximidade conosco. "Nada do que é humano me é estranho", já nos dizia o poeta. Somos tocados por histórias, sejam elas de ficção ou não, mas sempre humanas.

Em Conversas com... saboreamos as palavras e os mundos surgidos a partir do olhar de alguns autores/pensadores. De certo modo, a obra sempre espera esse diálogo e só se realiza na leitura. Um livro depende dos olhos de quem o lê. Sem o leitor, não há o autor. A leitura produz vida a quem lê - saboreia -  e também a quem escreve.
Em Amor em curso buscamos maior familiaridade com o tema do Amor. Não para criar um "Inmetro das relações", não para julgar ou definir coisa alguma. É tão somente um trecho dessa aventura do viver.

A vida nos convida e nos desafia a saboreá-la. 

Se você quiser participar do menu degustação oferecido nas atividades do Peteca Filosófica Social Clube, entre em contato conosco ;)

Texto de Marco Zago, com levíssimas pitadas de Teresa Bessil

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Conversas com...

 


Conversas com Rubem Alves e Rainer Maria Rilke

Reflexões a partir da leitura de textos de Rainer Maria Rilke, poeta alemão (1875-1926), e Rubem Alves, teólogo, psicanalista, professor e cronista (1933-2014). (*)


Rilke e Rubem colocaram em palavras muitas das questões humanas relacionadas à vida e morte: afetos, vocação, solidão, mistério, saberes e sabores. Em seus textos há um convite generoso que aproxima os mundos interno e externo. De modo profundo e leve, eles lançam e compartilham um olhar preciso sobre a condição humana. Prosa que parece canção, palavra que celebra encontros e inspira reflexões.

às terças, das 20h às 21h30, no Espaço da Lopes - Icaraí - Niterói

início: 05 de agosto

(*) Conversas com Rubem Alves é uma atividade desenhada há algum tempo, a partir de nossa grande afinidade e intimidade com a obra do autor, e agora transforma-se também em uma homenagem. Ele segue vivo em seus textos, segue vivo no coração de seus leitores e amigos. Foi escrever nas nuvens - para deleite absoluto dos anjos.


"Precisamos aceitar a nossa existência em todo o seu alcance; tudo, mesmo o inaudito, tem de sesr possível nela. No fundo é esta a única coragem que se exige de nós: sermos corajosos diante do que é mais estranho, mais maravilhoso e mais inexplicável entre tudo com que nos deparamos." - Rainer Maria Rilke

"A beleza me produz uma tristeza mansa. Não julgo que ela deva ser curada. Se eu a curasse, se eu ficasse alegrinho, eu deixaria de ser o que sou. Minha tirsteza é tanto parte de mim quanto a cor de meus olhos, as batidas de meu coração, as minhas mãos. Sem a minha tristeza eu ficaria aleijado - acho que até pararia de escrever. Porque a minha escritura é um contraponto musical à minha tristeza". Rubem Alves

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Platão, os trovadores e eu

 



Nossos encontros sobre o amor seguem.
Refletimos sobre o amor. Buscamos nos aproximar do afeto. Queremos deixar nossos passos serem guiados pelo próprio amor, ou melhor, por aquilo que é próprio à nossa forma de experienciar o amor. Com isso, o fio condutor do nosso meditar é a vida e não definições prévias sobre o amor. Tentamos nos mover a partir, e principalmente, dentro do amor. Almejamos de maneira muito simples falar a partir e não sobre o amor. Queremos a palavra simples, que seja o eco e a ressonância daquilo que se dá sempre na simplicidade e imediaticidade do nosso viver. Recolher o simples é sempre muito difícil.

Nosso encontro mais recente passeou por trovadores, poetas e Platão. Nosso olhar pôde colher um aceno, ainda muito rudimentar, do aspecto cultural do amor. Aquilo que hoje chamamos amor não é um fenômeno a-histórico. Foi forjado em nossa cultura ao longo dos séculos. Se nosso olhar atingiu algo de verdadeiro, podemos inferir que, como tudo mais na cultura, o amor também é aprendido. Amor não é pura maturação biológica. E aqui nosso caminhar resvala na mensagem repetida à exaustão por aqueles que a humanidade chama de mestres: o amor se aprende.
Mas não estamos tentando seguir mestres, e qualquer coincidência em relação às nossas meditações devem permanecer como possibilidades a serem visadas em outro momento caso isso se mostre interessante.  Tentamos não desviar de nosso fio condutor: o amor.

Em nosso encontro, foi possível refletir rapidamente em relação ao contraste das formas impessoais do amor de Eros e Ágape (tomados de forma bem ampla) e a forma pessoal que o amor toma em nossa vida.
Assim deixamos sinalizado o que virá em nosso próximo encontro.

Seguindo essa tonalidade, vemos o amor "acontecer" desta e daquela maneira, sempre e de novo.

Para cada um. Sempre e de novo. Em primeira pessoa. Sempre na minha vida. Acontecimento pessoal, acontecimento sempre meu. Vida sendo minha, vida se dando ao meu viver, sendo minha, meu ser.

(Texto de Marco Zago)

Vivências e sabores






No dia 29/06, tivemos mais um encontro do  "Amor em curso".
Olhamos para algumas formas possíveis de se estar em relação com algo, ou alguém. Essas possibilidades de vivências foram por nós nomeadas , ainda que de uma maneira bem ampla, como  gravitação, desejo e projeção.
Ainda tendo em mente essas formas de vivenciar um encontro, ficou bem claro que, nas relações que vamos estabelecendo ao longo da vida, todas essas possibilidades, - e muitas outras - surgem a todo o tempo, nas mais variadas interações. Para nós é muito difícil traçar limites nítidos entre aquilo que vamos vivenciando em nossos encontros com o outro.
E aqui retornamos ao sentido de nossos encontros no “Amor em curso”. Em nenhum momento pretendemos atingir a nitidez cristalina de um conceito que possa ser expresso em alguma definição capaz de "organizar e resolver" nossos relacionamentos.  O que procuramos é uma aproximação do nosso modo de vivenciar os encontros para que estes possam ser melhor "saboreados". Aqui sabor é pensado no seu parentesco etimológico com a palavra saber. Saber é uma forma de saborear, degustar.
Em nosso último encontro explicitamos justamente as dificuldades presentes nas relações, os muitos caminhos e descaminhos que fazem parte dos encontros, principalmente dos amorosos.
Como explicar esse incrível fascínio que o amor nos provoca?
Como pensar esse "sabor" único no nosso viver?
Deixo aqui duas citações que vão nos ajudar a seguir olhando essas questões.
O primeiro é um poema medieval do século XII:
"Assim, pelos olhos, o amor atinge o coração:
Pois os olhos são os espiões do coração.
E vão investigando
O que agradaria a este possuir.
E quando entram em pleno acordo
E, firmes, os três em um só se harmonizam,
Nesse instante nasce o amor perfeito, nasce
Daquilo que os olhos tornaram bem-vindos ao coração.
O amor não pode nascer nem ter início senão
Por esse movimento originado do pendor natural.
Pela graça e o comando
Dos três, e do prazer deles,
Nasce o amor, cuja clara esperança
Segue dando conforto aos seus amigos.
Pois, como sabem todos os amantes
Verdadeiros, o amor é bondade perfeita
Oriunda - ninguém duvida - do coração e dos olhos.
Os olhos o fazem florescer; o coração o amadurece:
Amor, fruto da semente pelos três plantada".
                                                                            Guiraut de Borneilh  ( cerca  1138 - 1200)
 
O segundo é apenas uma frase de Platão : "O amor é o desejo de gerar na beleza.”
 
Seguimos nesse processo de aproximação, Seguimos nessa aventura de sabores. Seguimos em curso.
(Texto de Marco Zago)
 
 
 
 
 

Isabela e Isadora




Isadora é moça de alegrias simples e sonhos contentes. Sai de casa bem cedo todo dia, e só volta depois do céu escurecido. Gosta da vida que leva. Certo dia Isadora fez um outro trajeto em sua manhã e se deparou com um canteiro de flores. Muitas flores, em cores e formas variadas. Achou aquilo tudo tão bonito que pensou com os botões que nem tinha: amanhã passo por aqui de novo. E assim fez. Manhã seguinte lá se foi Isadora ao encontro do canteiro de muitas flores. Levava consigo uma afiada tesoura de corte. Bem cuidadosa, cortou com precisão e extrema ternura várias flores, a maioria delas ainda em botão. No local do corte, cuidou de colocar um algodão embebido em água, para bem cuidar de cada flor. Isadora é moça de alegrias simples, sonhos contentes e sabe cuidar bem de tudo que vive.

Em casa, tirou do armário um bonito vaso de cristal que alguém lhe dera de presente, sabe lá quando ou por que motivo. Cuidadosamente foi colocando as flores no vaso, fluindo na belezura de cada flor e adivinhando o belíssimo conjunto que ali surgiria em alguns minutos. Pois foi desse jeito mesmo. Logo a sala estava mais nobre, bonita e perfumada que nunca. De tão contente, Isadora tirou uns dias de folga de seus afazeres comuns e se lançou a testemunhar a beleza daquilo tudo. Botões iam se abrindo, cada um em seu próprio ritmo e formato. E aquilo era tão tocante que Isadora convidou amigos e vizinhos para que outras gentes também respirassem tais acontecidos. Era um jeito bom de viver tudo aquilo. E mesmo quando os botões seguiram seu destino de flor madura que fenece, algo de muito singelo e ainda assim espetacular ali residia. E os amigos e vizinhos continuavam a lhe visitar talvez porque Isadora também fosse cumprindo seu destino de florescer. Quando porventura fenecer, a beleza, perfume e nobreza daquelas flores talvez sigam com ela.

Isabela é uma outra moça, de sonhos e alegrias desconhecidas por quem lhes escreve. Sabe-se dela muito pouco, mas tem um jeito bonito de olhar para quem passa e dizer bom dia. Faz nascer pequenos sorrisos por todo lado. À noite, ela segue em silêncio. Ninguém sabe os motivos, mas ela não diz boa noite aos que encontra em seu caminho de volta para casa. Uns dizem que é triste. Outros dizem que é quieta demais. Uns nada dizem, apenas adivinham pequenos sorrisos vivendo em seu coração.

Isabela mora em bairro distante de Isadora. As moças não se conhecem e talvez por isso Isabela não tenha sido convidada a frequentar a sala de Isadora, que como já lhes disse, seguiu bem bonita mesmo depois da passagem das flores. Há quem diga que aquele vaso de flores era encantado, de fazer contente muitas gentes. Talvez fosse mesmo. Lá não estive, mas bem posso adivinhar tais efeitos.

Um dia nossa Isabela passou por muitas pessoas, a todos dizendo bom dia. Distraída com todos aqueles pequenso sorrisos, acabou fazendo outro caminho. E se deparou com um canteiro de flores. Muitas flores,em  cores e formas variadas. Achou aquilo tudo tão bonito que pensou com os botões que nem tinha: amanhã passo por aqui de novo. E assim fez. Depois de muito bom dia distribuído, lá estava ela diante do canteiro novamente. Olhava aquilo tudo, e sentia coisas que nem sabia existir. E foi ficando parecida com as flores. Foi ficando variada em cores, perfumes e formas. Desde esse dia, Isabela passou a alterar seus caminhos para estar na presença das flores. Acompanhava o destino de cada uma delas. E também as flores pareciam acompanhar o destino de Isabela. Que passou a dizer boa noite a quem encontrasse na rua e nos sonhos. Há quem diga que sua tristeza virou poesia e já não doía em mais ninguém. Ao contrário, seu jeito de flor parecia encantar os lugares pelos quais passava. Deixava tudo bonito, nobre e perfumado. E tratava de modular seu caminho para estar diante de flor. Talvez tenha sido exatamente assim. Lá não estive, mas bem posso adivinhar tais efeitos.

Isabela alterava rota para estar diante das flores e nelas viver. As flores que Isadora levou para casa certamente mudaram seu mundo.

Isabela e Isadora são moças simples, cujos sonhos e alegrias não saberia lhes descrever. O que sei é que amavam flores. E nisso sentiam a vida. Isadora mudou sua casa, a si mesma e a todos que em sua casa estiveram. Isabela mudou seu caminho pelo mundo, a si mesma e a todos que encontrou. Tenho cá com os botões que nem tenho que as duas viraram flor e exalam perfumes que nos chegam assim de repente, sem que haja flores em volta.

Modos de estar, modos de amar, modos de viver. Tudo vida.

(Texto de Teresa Bessil)

 

Rubem Alves e os tipos de casamento

 




       Depois de muito meditar sobre o assunto concluí que os casamentos são de dois tipos: há os casamentos do tipo tênis e há os casamentos do tipo frescobol. Os casamentos do tipo tênis são uma fonte de raiva e ressentimentos e terminam sempre ...mal. Os casamentos do tipo frescobol são uma fonte de alegria e têm a chance de ter vida longa.

Explico-me. Para começar, uma afirmação de Nietzsche, com a qual concordo inteiramente. Dizia ele:

Ao pensar sobre a possibilidade do casamento cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: "Você crê que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até a sua velhice?". Tudo o mais no casamento é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar.

Xerazade sabia disso. Sabia que os casamentos baseados nos prazeres da cama são sempre decapitados pela manhã, terminam em separação, pois os prazeres do sexo se esgotam rapidamente, terminam na morte, como no filme O império dos sentidos. Por isso, quando o sexo já estava morto na cama, e o amor não mais se podia dizer através dele, ela o ressuscitava pela magia da palavra: começava uma longa conversa, conversa sem fim, que deveria durar mil e uma noites. O sultão se calava e escutava as suas palavras como se fossem música. A música dos sons ou da palavra – é a sexualidade sob a forma da eternidade: é o amor que ressuscita sempre, depois de morrer. Há os carinhos que se fazem com o corpo e há os carinhos que se fazem com as palavras. E contrariamente ao que pensam os amantes inexperientes, fazer carinho com as palavras não é ficar repetindo o tempo todo: "Eu te amo, eu te amo...". Barthes advertia: "Passada a primeira confissão, 'eu te amo' não quer dizer mais nada". É na conversa que o nosso verdadeiro corpo se mostra, não em sua nudez anatômica, mas em sua nudez poética. Recordo a sabedoria de Adélia Prado: "Erótica é a alma".

O tênis é um jogo feroz. O seu objetivo é derrotar o adversário. E a sua derrota se revela no seu erro: o outro foi incapaz de devolver a bola. Joga-se tênis para fazer o outro errar. O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco do seu adversário, e é justamente para aí que ele vai dirigir a sua cortada – palavra muito sugestiva, que indica o seu objetivo sádico, que é o de cortar, interromper, derrotar. O prazer do tênis se encontra, portanto, justamente no momento em que o jogo não pode mais continuar porque o adversário foi colocado fora de jogo. Termina sempre com a alegria de um e a tristeza de outro.
O frescobol se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que, para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devolvê-la gostosa, no lugar certo, para que o outro possa pegá-la. Não existe adversário porque não há ninguém a ser derrotado. Aqui ou os dois ganham ou ninguém ganha. E ninguém fica feliz quando o outro erra – pois o que se deseja é que ninguém erre. O erro de um, no frescobol, é como ejaculação precoce: um acidente lamentável que não deveria ter acontecido, pois o gostoso mesmo é aquele ir e vir, ir e vir, ir e vir... E o que errou pede desculpas, e o que provocou o erro se sente culpado. Mas não tem importância: começa-se de novo este delicioso jogo em que ninguém marca pontos...

A bola: são as nossas fantasias, irrealidades, sonhos sob a forma de palavras. Conversar é ficar batendo sonho pra lá, sonho pra cá...
Mas há casais que jogam com os sonhos como se jogassem tênis. Ficam à espera do momento certo para a cortada. Camus anotava no seu diário pequenos fragmentos para os livros que pretendia escrever. Um deles, que se encontra nos Primeiros cadernos, é sobre este jogo de tênis:

Cena: o marido, a mulher, a galeria. O primeiro tem valor e gosta de brilhar. A segunda guarda silêncio, mas, com pequenas frases secas, destrói todos os propósitos do caro esposo. Desta forma marca constantemente a sua superioridade. O outro domina-se, mas sofre uma humilhação e é assim que nasce o ódio. Exemplo: com um sorriso: "Não se faça mais estúpido do que é, meu amigo". A galeria torce e sorri pouco à vontade. Ele cora, aproxima-se dela, beija-lhe a mão suspirando: "Tens razão, minha querida". A situação está salva e o ódio vai aumentando.

Tênis é assim: recebe-se o sonho do outro para destruí-lo, arrebentá-lo, como bolha de sabão... O que se busca é ter razão e o que se ganha é o distanciamento. Aqui, quem ganha sempre perde.

Já no frescobol é diferente: o sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois se sabe que, se é sonho, é coisa delicada, do coração. O bom ouvinte é aquele que, ao falar, abre espaços para que as bolhas de sabão do outro voem livres. Bola vai, bola vem – cresce o amor... Ninguém ganha para que os dois ganhem. E se deseja então que o outro viva sempre, eternamente, para que o jogo nunca tenha fim...

(Texto de Rubem Alves)

 

Mistérios e desafios


 
 
Amor. Em todos os tempos, nada foi tão cantado, pensado, desenhado, escrito e descrito. Exerce enorme poder de nos mobilizar - para o bem ou para o mal. Todos os grandes mestres nos apontam e inspiram nesse sentido. Ainda assim, percebemos ...uma dificuldade em viver a partir do Amor, conhecê-lo ou reconhecê-lo. Talvez seja mais fácil dele falar do que nele habitar.

E justo porque nos afeta tanto, o assunto surge repetidas vezes, flertando com o piegas aqui e ali - meio cansativo, talvez. Ainda assim, é um tema que se impõe pela própria aventura do viver. Como escapar ou desviar do tema do amor? Que siga surgindo, com seus mistérios e desafios.

“Si nada nos salva de la muerte, al menos que el amor nos salve de la vida”
                                                                                            (Pablo Neruda)