Estava aqui ainda reverberando nosso filme "A Época da Inocência", seguindo junto com o texto que Caroline postou no blog dela. Também retomei o que conversamos quando assistimos "Eu Maior", quando o tema do caminho- a vida como caminhar - conduziu nossas conversas.
Somos esses seres sempre "convidados" a caminhar, somos seres errantes.
Quando pensamos em caminhar, pensamos em movimento, mudança, ir ao encontro de, estar na presença de, pensamos em tudo que vem ao nosso encontro ao longo do caminho.
A partir desta visada, o caminhar mostra-se não como o simples percorrer de uma determinada rota, não o deslocamento do ponto A ao ponto B, mas sim o nosso estar junto àquilo que se dá e se mostra ao longo do percurso. Nós já estamos sempre juntos a algo, esteja este algo no aqui e agora do tempo presente, naquilo que um dia foi, ou no que virá. Desta forma, esse caminhar se relaciona diretamente com nosso estar atento a, estar aberto para, estar interessado em, sem que essa condição esteja totalmente sob nosso controle consciente.
Também é uma característica bem conhecida que todo caminho tem suas bifurcações, suas encruzilhadas, muitas das quais nós sequer poderíamos supor no início de nossa caminhada.
Dilema. Este parece ser parte fundamental da trama de "A Era da Inocência". Archer e Olenska são surpreendidos: eles encontram um ao outro, e, na surpresa desse encontro, encontram a si mesmos. Encontram-se inevitavelmente diante de uma difícil escolha. A partir desses encontros, suas vidas mudam radicalmente. E é essa radicalidade que precisa ser compreendida em sua profundidade.
O tema do filme não trata de uma relação extraconjugal, adultério, pulada de cerca, ou qualquer outra forma que se decida nomear. O adultério, como o próprio filme mostra, era bastante comum, e de certa forma até aceito naquela comunidade, desde que realizado com a devida discrição. Isso quer dizer que a possibilidade de uma relação fora do casamento não era de todo estranha ao mundo de Archer. Não é essa possibilidade que o surpreende. O que lhe era absolutamente desconhecido, o que descobre ao encontrar Olenska, é que todo um mundo até então impossível torna-se agora tangível. Está ao alcance de suas mãos toda uma possibilidade de vida muito mais rica do que até então eles conheciam.
E é esse o peso da decisão que ambos têm que enfrentar. Não é apenas se iriam ou não ter um "casinho".
A vida agora explode em excitação e gravidade; talvez pela primeira vez eles estejam de fato vivos.
Como decidir algo diante daquilo que nos é desconhecido? Essa parece ser a tarefa que nós temos sempre que realizar, uma vez após a outra.
E aqui reverberam duas colocações feitas no filme "Eu maior". Rubem Alves nos conta que uma vez, ao ser perguntado como se tornou escritor, respondeu que se tornou escritor porque tudo o que ele havia planejado deu errado. Roberto Crema cita um provérbio dos grandes navegadores: "Nenhum vento é favorável para quem não sabe aonde quer chegar".
Duas citações que nos falam de escolhas, destinações, envios de futuro.
Archer e Olenska têm diante de si a vida chamando e se abrindo em possibilidades de ser e não-ser. Ventos que esperam por eles e por todos nós.

Içar e recolher as velas. Atravessar mares, retornar ao cais.
ResponderExcluirVelas amplas, fortes e ao mesmo tempo leves para quando os ventos soprarem.
Bons motores e combustível para quando os ventos cessarem e for preciso seguir viagem.
Bússolas, mapas e estrelas. E uma liberdade de seguir ou alterar rotas já conhecidas.
Paciência e delicadeza para atracar ou quem sabe até ficar um tempo à deriva.
Em meio a tantas imagens de mar, uma bela canção vez em quando me acompanha...
“Largar desse cais, ir sem direção...”
A vida é mesmo uma aventura extraordinária.
http://www.youtube.com/watch?v=LRaAnKf7PX0
Adorei "envios de futuro"!
ResponderExcluirDestinações...
ExcluirMuitas vezes, durante a caminhada, não sabemos com comprecisão qual a melhor rota, o melhor caminho... pois não temos o mapa nas mãos. Pensamos então, e se nos deixamos levar por este ou aquele vento...
ResponderExcluirAssim, por ainda não ter claro o que queremos de fato... ficamos eventualmente a deriva...
Uma opção talvez, possa ser focarmos justo no "estremo oposto", ou seja, naquilo que de fato não queremos, restringindo, desta forma, a gama de possibilidades... e por fim clareando o caminho... creio que isso possa ser de grande valia.
Ficar com o que sabemos... Dizer não já é também uma forma de dizer sim!
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