quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Texto previamente escolhido, roteiro alegremente desenhado. Mas como encontro bom é sempre algo vivo, seguimos alegremente por uma outra rota. Respirar coletivo é assim, inspira flexibilidade e abertura. Desse modo, nossa prosa começou pelo seguinte trecho de uma crônica de Rubem Alves, no qual ele fala de otimismo e esperança:

"Camus sabia o que era esperança. Suas palavras: "E no meio do inverno eu descobri que dentro de mim havia um verão invencível..." Otimismo é alegria "por causa de ": coisa humana, natural. Esperança é alegria "a despeito de": coisa divina. Otimismo tem suas raízes no tempo. A esperança tem suas raízes na eternidade. O otimismo se alimenta das grandes coisas. Sem elas, ele morre. A esperança se alimenta de pequenas coisas. Nas pequenas coisas ela floresce. Basta-lhe um morango à beira do abismo."

Do termo esperança, surgiram alguns verbos: esperar, aguardar. E assim desenhou-se o tema ação e não-ação.

Esperar pode ser algo que se dá a partir de uma sensação de impotência. "Não há mais nada a fazer, a não ser esperar". Isso pode ser algo pesado, passivo, impotente. Por outro lado, há um esperar/aguardar que traz em si a potência do ser que aguarda. Aguardar o momento de maior clareza, aguardar que outros movimentos se mostrem, trazendo toda uma rede de outros personagens. Aguardar em silêncio para melhor escutar o que o vento traz em sussurros ou trovões. Lembramos a potência que se manifesta em aguardar por liberdade, de modo ativo , não às cegas. Aguardar como quem espreita, de modo cuidadoso, ampliando o contato consigo mesmo e com os envolvidos na situação.

Há momentos em que aguardar é deixar passar do ponto, é perder a oportunidade daquilo que surge diante de nós. Há momentos em que o melhor a fazer é simplesmente bater em retirada. Falar duro. Calar com doçura e firmeza. Cada momento inspira, oferece e demanda diferentes possibilidades.

Agir por liberdade. Aguardar por liberdade. Ser autor e co-autor. Afinal, não tomar qualquer posição é uma posição muito clara. Pode até nos produzir uma falsa sensação de estarmos desonerados dos desdobramentos e consequências das situações. Mas não há como nos desonerar dos rumos de nossa própria vida.

Lembramos de um nó bastante comum que algumas pessoas vivenciam em suas relações de trabalho. Insatisfeitas na relação com o chefe, insatisfeitas em seu cotidiano de trabalho, sentem-se amarradas, reclamam, mas não vislumbram qualquer rota que permita afrouxar o nó. Para quem acompanha amigos em tais situações surge também uma questão relacionada a ação/não-ação. Algumas vezes, justo por estarmos de um ponto mais distante, vemos com um cadinho mais de clareza, mas oferecer algum tipo de solução talvez não seja o melhor a ser feito, talvez não auxilie a desatar o tal nó e ainda gere outros tantos.

Deixar que o outro se aproprie de suas rotas, escolhas, ações e não-ações é coisa que desafia. O que falar, quando e como. O que calar, quando e como. Presenciar nós alheios é algo que vez em quando – vez em sempre - nos amarra. Seremos hábeis para manter o laço e servir de apoio? Ou será que em muitos casos o melhor não seria cortar laços antes que virem nós?

Ação e não-ação serão igualmente potentes ou impotentes de acordo com o estado de espírito de quem age e/ou não-age. Em muitos momentos, haverá uma lucidez em agir. Em outros, a sabedoria será justamente não agir, não intervir, não modular. Há muitas nuances nesse belo tema. Ficamos olhando para tudo isso de vários ângulos. Foi uma bela petecada.

Ah, e ainda falamos um tanto sobre relações afetivas que se baseiam mais em negociações do que em afetos. E sobre seguir ou não os chamados da vida. Mas isso já é uma outra história...


Por Teresa Bessil


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