quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Sobre simplicidade e sabedoria - áudio do encontro



Encontros ao vivo e a cores são sempre mais saborosos. Mas tem conversa que é tão rica que pede mais. Tem sido assim. Muita gente que anda longe nos pede para participar das conversas promovidas pelo Peteca. Então, vamos ampliar essa conversa!

Começamos com um belo texto de Rubem Alves sobre simplicidade e sabedoria - o próprio autor sugere a música de fundo! Com mais de 50 livros publicados, em seus textos Rubem Alves visita temas fundamentais de um jeito ao mesmo tempo leve e profundo, e sempre inspira ótimas reflexões.

Esse áudio, na voz de Teresa Bessil,  é também um registro de nossa gratidão a ele.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

simplicidade e sabedoria


No dia 05 de agosto, realizamos nosso primeiro encontro do "Conversas com Rubem Alves". Começamos com o ótimo texto " Sobre simplicidade e sabedoria" do livro "Concerto para corpo e alma".
.
Seguimos o convite à reflexão que o texto nos ...causa. Durante hora e meia a conversa correu solta. Cada um e todos juntos se dando o tempo para pensar sobre essa eterna dinâmica que nos tensiona e nos lança à frente, entre a multiplicidade e a simplicidade - e a sabedoria que pode brotar a partir do nosso transitar entre elas.

Um encontro é sempre coisa única; não há como e nem porque se tentar reproduzir aqui o que acontece em um encontro. Então para continuar cultivando aquilo que possa ter sido despertado na terça, apenas citamos aqui alguns trechos do texto que mais conduziram as conversas.

"As aves, ao crepúsculo, são simples. Simplicidade é isso: quando o coração busca uma só coisa."

"Se, para os jovens, a multiplicidade tem o nome de liberdade, para os adultos, tem o nome de dever."

"Mas o que a multiplicidade faz é estilhaçar o coração. O coração que persegue os "muitos" é um coração fragmentado, sem descanso."

"Saberes não são lar. São, na melhor das hipóteses, tijolos para se construir a casa. Mas os tijolos, eles mesmos, nada sabem sobre a casa. Os tijolos pertencem a multiplicidade. A casa pertence à simplicidade: uma única coisa."

"Diz o Tao Te Ching:" Na busca do conhecimento a cada dia se soma uma coisa. Na busca da sabedoria a cada dia se diminui uma coisa".

"A sabedoria é a arte de reconhecer e degustar a alegria."
Ver mais
 


quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Do Amor



Do Amor - Moska
Não falo do amor romântico,
aquelas paixões meladas de tristeza e sofrimento.
Relações de dependência e submissão,
paixões tristes.
Algumas pessoas confundem isso com amor.
Chamam de amor esse querer escravo,
e pensam que o amor é alguma coisa que pode ser definida,
explicada, entendida, julgada.
Pensam que o amor já estava pronto,
formatado, inteiro, antes de ser experimentado.
Mas é exatamente o oposto, para mim,
que o amor manifesta.
A virtude do amor é sua capacidade potencial de ser construído,
inventado e modificado.
O amor está em movimento eterno, em velocidade infinita.
O amor é um móbile.
Como fotografá-lo?
Como percebê-lo?
Como se deixar sê-lo?
E como impedir que a imagem sedentária e cansada do amor não nos domine?
Minha resposta?
O amor é o desconhecido.
Mesmo depois de uma vida inteira de amores,
o amor será sempre o desconhecido,
a força luminosa que ao mesmo tempo cega e nos dá uma nova visão.
A imagem que eu tenho do amor é a de um ser em mutação.
O amor quer ser interferido,
quer ser violado,
quer ser transformado a cada instante.
A vida do amor depende dessa interferência.
A morte do amor é quando, diante do seu labirinto,
decidimos caminhar pela estrada reta.
Ele nos oferece seus oceanos de mares revoltos e profundos,
e nós preferimos o leito de um rio,
com início, meio e fim.
Não, não podemos subestimar o amor não podemos castrá-lo.
O amor não é orgânico.
Não é meu coração que sente o amor.
É a minha alma que o saboreia.
Não é no meu sangue que ele ferve.
O amor faz sua fogueira dionisíaca no meu espírito.
Sua força se mistura com a minha e
nossas pequenas fagulhas ecoam pelo céu
como se fossem novas estrelas recém-nascidas.
O amor brilha.
Como uma aurora colorida e misteriosa,
como um crepúsculo inundado de beleza e despedida,
o amor grita seu silêncio e nos dá sua música.
Nós dançamos sua felicidade em delírio porque somos o alimento preferido do amor,
se estivermos também a devorá-lo.
O amor, eu não conheço.
E é exatamente por isso que o desejo e me jogo do seu abismo,
me aventurando ao seu encontro.
A vida só existe quando o amor a navega.
Morrer de amor é a substância de que a Vida é feita.
Ou melhor, só se Vive no amor.
E a língua do amor é a língua que eu falo e escuto.












terça-feira, 29 de julho de 2014

Para saborear




Estávamos na fase de pensar e preparar as atividades do Espaço da Lopes para o segundo semestre quando um dia me deparei com a seguinte frase de Alexandre Dumas:  
" O homem não vive do que come, mas do que digere."

Na hora me lembrei que um dia muitos de nós cantamos (talvez tenhamos mais  gritado  do que cantado) junto com os Titãs:  "Você tem fome de quê?  Você tem sede de quê?"

Os anos 80 já se foram há um bom tempo, mas a pergunta é sempre atual: você tem fome de quê ?

Talvez agora tal pergunta surja  em outro contexto. O tempo passou, a vida se acelerou,  e o aspecto de consumo parece se instalar em tudo que está ao nosso redor. Na vertigem causada pela necessidade de maximizar a eficiência, consumimos tudo. O mundo vai se transformando em um mercado. Todos os aspectos da existência parecem sucumbir ao mandamento do consumo. Isso é bom ou ruim ? Quem pode dizer?
O assunto é bastante complexo, e criar juízos de valores está totalmente fora dessa nossa reflexão. O que sabemos é que em boa parte do tempo, diante da variedade multicolorida do que nos é "vendido", nós acabamos por "engolir sem mastigar", nós nos alimentamos sem saborear.

Sem sabor é difícil possuir saber. De qualquer maneira, não importa, afinal  amanhã já será tudo outro. Também foram os mesmo Titãs que compuseram "A melhor banda de todos os tempos da última semana". Saborear, digerir, quem tem tempo?

Nietzsch já nos chamava a atenção para a necessidade de cultivarmos nossa qualidade "bovina", de ruminar. O que é esse ruminar se não o próprio digerir?
Rubem Alves nos fala: " Há autores que li sem que os tivesse amado. Não os devorei. Suas ideias ficaram guardadas na minha cabeça. Outros, que amei, devorei. Passaram a fazer parte do meu corpo. Aquilo que se come não continua sendo o mesmo, depois de comido. É assimilado - fica semelhante a mim. Batatas, cenouras, e carnes, uma vez comidas, deixam de ser batatas, cenouras e carnes. Passam a ser parte de mim mesmo, minha carne, meu sangue. Assim acontece com os autores que devorei e cito. Só os cito porque se tornaram parte da minha carne e do meu sangue. Eu os conheço "de cor" - isto é, como parte do meu coração. Deixaram de ser eles. São eu."

Talvez algo do mal estar do cotidiano esteja aí. Sem tempo para digerir, sem tempo para saborear, como saber? Como responder ao  "você tem fome de quê?"
Sem devorar, sem digerir, do que é feito nossa carne, nosso sangue? Se acompanhamos o pensar de Rubem Alves ,tudo torna-se idéia. Talvez esses sejam indícios  dessa imaterialidade e falta de concretude, sentida como um grande vazio ao nosso redor.

Às vezes tudo pode parecer assustadoramente dificil. Mas não ha necessidade de susto. Os temas são graves pela gravidade de nossas vidas. Nossa vida nos importa. É a liberdade misteriosa do viver que nos lança de encontro a nosso mundo e nos convoca para a realização do nosso ser.
Para saber-nos, temos que saborear o nosso viver. E talvez assim torne-se mais fácil responder: você tem fome de quê?

É nesse contexto que surge nossa atenção especial com o saborear nas atividades do Peteca Filosófica.
Em Peteca Movies somos levados para outros mundos, outras vidas, mas que sempre guardam uma proximidade conosco. "Nada do que é humano me é estranho", já nos dizia o poeta. Somos tocados por histórias, sejam elas de ficção ou não, mas sempre humanas.

Em Conversas com... saboreamos as palavras e os mundos surgidos a partir do olhar de alguns autores/pensadores. De certo modo, a obra sempre espera esse diálogo e só se realiza na leitura. Um livro depende dos olhos de quem o lê. Sem o leitor, não há o autor. A leitura produz vida a quem lê - saboreia -  e também a quem escreve.
Em Amor em curso buscamos maior familiaridade com o tema do Amor. Não para criar um "Inmetro das relações", não para julgar ou definir coisa alguma. É tão somente um trecho dessa aventura do viver.

A vida nos convida e nos desafia a saboreá-la. 

Se você quiser participar do menu degustação oferecido nas atividades do Peteca Filosófica Social Clube, entre em contato conosco ;)

Texto de Marco Zago, com levíssimas pitadas de Teresa Bessil

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Conversas com...

 


Conversas com Rubem Alves e Rainer Maria Rilke

Reflexões a partir da leitura de textos de Rainer Maria Rilke, poeta alemão (1875-1926), e Rubem Alves, teólogo, psicanalista, professor e cronista (1933-2014). (*)


Rilke e Rubem colocaram em palavras muitas das questões humanas relacionadas à vida e morte: afetos, vocação, solidão, mistério, saberes e sabores. Em seus textos há um convite generoso que aproxima os mundos interno e externo. De modo profundo e leve, eles lançam e compartilham um olhar preciso sobre a condição humana. Prosa que parece canção, palavra que celebra encontros e inspira reflexões.

às terças, das 20h às 21h30, no Espaço da Lopes - Icaraí - Niterói

início: 05 de agosto

(*) Conversas com Rubem Alves é uma atividade desenhada há algum tempo, a partir de nossa grande afinidade e intimidade com a obra do autor, e agora transforma-se também em uma homenagem. Ele segue vivo em seus textos, segue vivo no coração de seus leitores e amigos. Foi escrever nas nuvens - para deleite absoluto dos anjos.


"Precisamos aceitar a nossa existência em todo o seu alcance; tudo, mesmo o inaudito, tem de sesr possível nela. No fundo é esta a única coragem que se exige de nós: sermos corajosos diante do que é mais estranho, mais maravilhoso e mais inexplicável entre tudo com que nos deparamos." - Rainer Maria Rilke

"A beleza me produz uma tristeza mansa. Não julgo que ela deva ser curada. Se eu a curasse, se eu ficasse alegrinho, eu deixaria de ser o que sou. Minha tirsteza é tanto parte de mim quanto a cor de meus olhos, as batidas de meu coração, as minhas mãos. Sem a minha tristeza eu ficaria aleijado - acho que até pararia de escrever. Porque a minha escritura é um contraponto musical à minha tristeza". Rubem Alves

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Platão, os trovadores e eu

 



Nossos encontros sobre o amor seguem.
Refletimos sobre o amor. Buscamos nos aproximar do afeto. Queremos deixar nossos passos serem guiados pelo próprio amor, ou melhor, por aquilo que é próprio à nossa forma de experienciar o amor. Com isso, o fio condutor do nosso meditar é a vida e não definições prévias sobre o amor. Tentamos nos mover a partir, e principalmente, dentro do amor. Almejamos de maneira muito simples falar a partir e não sobre o amor. Queremos a palavra simples, que seja o eco e a ressonância daquilo que se dá sempre na simplicidade e imediaticidade do nosso viver. Recolher o simples é sempre muito difícil.

Nosso encontro mais recente passeou por trovadores, poetas e Platão. Nosso olhar pôde colher um aceno, ainda muito rudimentar, do aspecto cultural do amor. Aquilo que hoje chamamos amor não é um fenômeno a-histórico. Foi forjado em nossa cultura ao longo dos séculos. Se nosso olhar atingiu algo de verdadeiro, podemos inferir que, como tudo mais na cultura, o amor também é aprendido. Amor não é pura maturação biológica. E aqui nosso caminhar resvala na mensagem repetida à exaustão por aqueles que a humanidade chama de mestres: o amor se aprende.
Mas não estamos tentando seguir mestres, e qualquer coincidência em relação às nossas meditações devem permanecer como possibilidades a serem visadas em outro momento caso isso se mostre interessante.  Tentamos não desviar de nosso fio condutor: o amor.

Em nosso encontro, foi possível refletir rapidamente em relação ao contraste das formas impessoais do amor de Eros e Ágape (tomados de forma bem ampla) e a forma pessoal que o amor toma em nossa vida.
Assim deixamos sinalizado o que virá em nosso próximo encontro.

Seguindo essa tonalidade, vemos o amor "acontecer" desta e daquela maneira, sempre e de novo.

Para cada um. Sempre e de novo. Em primeira pessoa. Sempre na minha vida. Acontecimento pessoal, acontecimento sempre meu. Vida sendo minha, vida se dando ao meu viver, sendo minha, meu ser.

(Texto de Marco Zago)

Vivências e sabores






No dia 29/06, tivemos mais um encontro do  "Amor em curso".
Olhamos para algumas formas possíveis de se estar em relação com algo, ou alguém. Essas possibilidades de vivências foram por nós nomeadas , ainda que de uma maneira bem ampla, como  gravitação, desejo e projeção.
Ainda tendo em mente essas formas de vivenciar um encontro, ficou bem claro que, nas relações que vamos estabelecendo ao longo da vida, todas essas possibilidades, - e muitas outras - surgem a todo o tempo, nas mais variadas interações. Para nós é muito difícil traçar limites nítidos entre aquilo que vamos vivenciando em nossos encontros com o outro.
E aqui retornamos ao sentido de nossos encontros no “Amor em curso”. Em nenhum momento pretendemos atingir a nitidez cristalina de um conceito que possa ser expresso em alguma definição capaz de "organizar e resolver" nossos relacionamentos.  O que procuramos é uma aproximação do nosso modo de vivenciar os encontros para que estes possam ser melhor "saboreados". Aqui sabor é pensado no seu parentesco etimológico com a palavra saber. Saber é uma forma de saborear, degustar.
Em nosso último encontro explicitamos justamente as dificuldades presentes nas relações, os muitos caminhos e descaminhos que fazem parte dos encontros, principalmente dos amorosos.
Como explicar esse incrível fascínio que o amor nos provoca?
Como pensar esse "sabor" único no nosso viver?
Deixo aqui duas citações que vão nos ajudar a seguir olhando essas questões.
O primeiro é um poema medieval do século XII:
"Assim, pelos olhos, o amor atinge o coração:
Pois os olhos são os espiões do coração.
E vão investigando
O que agradaria a este possuir.
E quando entram em pleno acordo
E, firmes, os três em um só se harmonizam,
Nesse instante nasce o amor perfeito, nasce
Daquilo que os olhos tornaram bem-vindos ao coração.
O amor não pode nascer nem ter início senão
Por esse movimento originado do pendor natural.
Pela graça e o comando
Dos três, e do prazer deles,
Nasce o amor, cuja clara esperança
Segue dando conforto aos seus amigos.
Pois, como sabem todos os amantes
Verdadeiros, o amor é bondade perfeita
Oriunda - ninguém duvida - do coração e dos olhos.
Os olhos o fazem florescer; o coração o amadurece:
Amor, fruto da semente pelos três plantada".
                                                                            Guiraut de Borneilh  ( cerca  1138 - 1200)
 
O segundo é apenas uma frase de Platão : "O amor é o desejo de gerar na beleza.”
 
Seguimos nesse processo de aproximação, Seguimos nessa aventura de sabores. Seguimos em curso.
(Texto de Marco Zago)