" O homem não pode existir senão em comércio e comunhão com o mundo dos entes. Ente significa tudo que de algum modo é: o homem, as coisas, os acontecimentos, até mesmo o Nada, enquanto é um Nada, isto é, enquanto tem significado, seja positivo ou negativo para a existência [...] Do ente o homem não pode prescindir. Em todas as suas indústria e atividades, para pensar e querer, sentindo e amando, na vida e na morte, o homem não se basta a si mesmo. Sempre necessita de algo, que ele mesmo não é. Sem esse outro o homem não pode ser. Edificando-se necessariamente dessa indigência, a existência humana exige que o ente a afete, se lhe dê e manifeste. Para existir o homem tem que imergir-se e entregar-se aos entes. A palavra imanência indica esta contingência. A necessidade do homem de estar sempre presente ao mundo dos entes, para chegar a ser ele mesmo. Exprime que o homem não pode ser o ente que é, senão encarnado no mundo. Em contínua comunhão com os outros entes. A índole específica desse modo humano de ser reside na iluminação da imanência ao mundo pela luz do Ser, na qual os entes aparecem em seu ser: os animais em sua animalidade, os instrumentos em sua instrumentalidade, os homens em sua humanidade. Assim, a palavra, ser, é ambígua. Uma vez significa o modo de ser do ente: a saber, que o ente é e aquilo que é o que é. Outra vez significa o fundamento da possibilidade em virtude da qual o ente se essencializa no seu ser ( ser no primeiro sentido) [...] O comércio com os entes, de que necessita o homem para existir, se sustenta e articula numa pré-compreensão multiforme da Verdade do Ser, vigente na dimensão da linguagem, por cuja força o homem sempre usa a palavra "é". Chama as pessoas e coisas de entes. Com elas se comunica em termos de essência e existência, de constância e mutabilidade, de ser e não-ser, de poder e dever ser, de ser verdadeiro e falso, de vir a ser e sempre ser, de ser presente, passado e futuro. Em todas estas locuções o homem apreende e compreende, colhe e escolhe, une e reúne, confere e difere tudo que lhe advém da totalidade do ente sob o vigor da Verdade do Ser, explicitamente indeterminada mas de extensão e compreensão inesgotável. O termo transcendência indica essa excelência do homem de ultrapassar e superar a obscuridade do ente, com o qual constantemente se comunica em sua existência, iluminando-lhe o sentido, tornando-lhe transparente na luz da Verdade. Já o fato de se usar uma mesma palavra, a saber, luz, para significar tanto um fenômeno externo, a luz do sol, como um fenômeno interno, a luz da verdade, mostra de alguma maneira que o sol não se encontra de modo absoluto e exclusivo fora do homem nem que a verdade se acha de modo absoluto e exclusivo dentro do homem, mas que primária e originalmente o homem sempre existe no mundo, enquanto transcende, e o mundo sempre transcende, enquanto nele existe."
E. Carneiro Leão
Espreitando bem de pertinho o que nos torna humanos, vamos nos aproximando de algo em constante movimento, teia, relação e mergulho. Os mundos que se apresentam diante de nós são convites para esse espreitar. Afinal, como surgem os mundos que me surgem e me fazem surgir? Será que o mundo me diz quem eu sou? ou eu mesmo direi o que o mundo é? Ou haverá algo que transcende essa noção de construtores de mundo?
ResponderExcluirTalvez sejamos apenas a vida se manifestando, puro potencial de comunhão e compartilhamento. Talvez possamos ser de muitos modos nos muitos mundos de um jeito tal que nossa própria essência nos escapa.
Seguimos girando pelos mundos girantes, a dotar de sentido cada momento, cada ser, conceito, encontro, desencontro, sentimento. E essa capacidade de ser e transcender vai seguindo conosco, desse modo meio misterioso e quase maroto que a vida tem de nos arrebatar.