“Eu serei sua testemunha” (*). Esse pequeno e comovente diálogo segue movimentando meu coração há dias. Para dar contorno aos sentimentos, recorro ao silêncio e às palavras. E como palavra é coisa misteriosa e marota, vou até o dicionário, um antigo e pesado Aurélio que ganhei de presente de meu pai na década de 90. E vou olhando palavras enquanto sigo espreitando sentidos/sentimentos. Fazia um tempo que não brincava com dicionário. Mais do que revelador e divertido, pode se tornar um passeio de saborosas surpresas.
O dicionário confirma. Testemunha- pessoa chamada a assistir certos atos autênticos ou solenes; coisa que atesta a verdade de algum fato.
Pessoa chamada a assistir. A vida nos chama. Chamamos a vida. Viver ao lado de alguém pode se tornar esse chamado, aquilo que torna minha vida solene. Testemunha, aquele que ao atender o chamado dá verdade a cada coisa vivida. Aquele que me nota, que transforma o que vivo em algo notável, digno de nota, atenção ou reparo. Digno de apreciação, essencial, importante. Em uma relação podemos ser essa presença que torna a vida de alguém em algo notável, dotado de sentido, importante e vivo. Presença que atesta a verdade de tudo o que tenho vivido, ainda que aquilo que vivo seja tão múltiplo, móvel, efêmero, instável, aberto, reconfigurável. E talvez justo por ser assim, o que vivo seja notável.
Conta o dicionário que testemunhar é dar testemunho acerca de, confirmar, comprovar, demonstrar. E ainda manifestar, expressar, revelar.
Se você testemunha o que vivo, esse talvez seja o modo mais sublime de revelar aquilo que vivo. Através do seu olhar, minha vida se expressa. Através da sua presença, minha vida se mostra. Seu olhar confirma e revela quem sou. Mesmo sendo muitos, mesmo sendo tantos, mesmo sendo algo tão aberto, mutável, permeável.
Meu amigo Aurélio traz uma bela citação de Manuel Bandeira: “Anunciaram que você morreu. Meus olhos, meus ouvidos testemunham. A alma profunda, não”.
É preciso pois testemunhar não somente com olhos e ouvidos. Sim, há muitos que nos vêem passar. Olham somente com os olhos, e talvez por isso não nos vejam. Há muitos que só nos ouvem palavras. Mas testemunhar de modo amoroso, no sentido de revelar, é coisa a ser feita com alma, coração e coragem.
Há uma sublime delicadeza em quem nos testemunha com alma profunda e ouve além da sequência de nossas palavras. Não porque entenda ou adivinhe o sentido que damos às palavras. Afinal, nem sempre nossas palavras trazem qualquer sentido. Muitas vezes são meramente exercícios particulares, jeitos de nos manifestarmos. Palavras e silêncios vez por outra surgem meio sem jeito, sem graça. Mas ainda assim, a presença de alguém a nos ouvir com alma profunda vai derramando graça em tudo o que se passa. E talvez assim tudo passe de um jeito mais ameno, mais aberto. Talvez aquele que testemunha meu medo possa dotar esse medo não só de algum sentido, mas também de leveza. Talvez possa dotar esse medo de uma verdade quase onírica, talvez possa até mesmo recuperar o espaço que o medo me toma, para que eu possa simplesmente... sentir medo. Para que eu finalmente sossegue em meio ao medo, sem fugir ou negá-lo. Talvez aquele que me testemunha com alma profunda possa revelar a vida que vivo de um modo naturalmente valioso, sem tanta gravidade ou alarde. Ser autêntico talvez seja apenas ser simples. Ser verdadeiramente importante talvez seja tão somente ser importado para dentro da vida e coração de alguém.
Fico horas saboreando palavras, descortinando sentidos/sentimentos. Testemunhar é ser chamado a assistir. E volto ao amigo Aurélio, que me conta o que já desconfio. “Assistir” traz um sentido bastante conhecido de auxiliar, socorrer, favorecer, acompanhar. Mas é também estar presente, comparecer, residir, morar. Pronto, era isso que meu coração adivinhava. Se você é testemunha amorosa de minha vida, aquele que atendeu o chamado a assistir minhas aventuras, sonhos, pesadelos, tesouros, mortes, céus, nuvens, flores e silêncios, isso se dá não somente porque está por perto e me testemunha com olhos e ouvidos, mas porque você faz morada em minha vida. E se a cada momento a vida me chama, com tantos desafios e bênçãos, a cada momento, também eu faço morada em sua alma, essa alma profunda, que tão delicada e misteriosamente me testemunha.
por Teresa Bessil
(*) Tradução do diálogo do clip.
BEV – “Todas essas promessas que fazemos e quebramos... Em sua opinião, por que as pessoas se casam?”
DETETIVE – “Paixão”.
BEV – “Não”
DETETIVE – “Curioso, achei que você fosse uma mulher romântica. Por que então as pessoas se casam?”
BEV – “Porque nós precisamos de uma testemunha para nossas vidas. Bilhões de pessoas no planeta... O que a vida de cada um de nós significa? Mas, em um casamento, você promete cuidar/olhar cada coisa. As coisas boas, as ruins, as coisas terríveis, as absolutamente corriqueiras. Tudo, todo o tempo. A cada dia você está dizendo: sua vida não passará em branco, porque eu irei notá-la. Sua vida não passará sem testemunho, porque eu serei sua testemunha”.